Há algo curioso acontecendo na campanha presidencial em Guarapuava. E não está exatamente no discurso dos candidatos, mas nas pessoas que aparecem ao redor deles.
De um lado, deputados, deputada, prefeito e lideranças reunidos em um adesivaço de Flávio Bolsonaro. Discursos afinados, fotografias, publicações nas redes sociais. Uma demonstração de unidade entre grupos que, até poucos dias atrás, estavam em lados opostos na eleição estadual.
Do outro, movimentos sociais, culturais e estudantis ocupando as ruas em defesa de Lula. Há mobilização, iniciativa e disposição. Mas as principais lideranças petistas parecem seguir outras agendas. E a conexão entre essas frentes, pelo menos publicamente, não aparece com a mesma clareza.
É uma diferença que merece atenção. De um lado, a política organizada pelas lideranças. Do outro, uma mobilização que parece caminhar à frente da própria estrutura partidária.
E há uma ironia nesse cenário.
Prefeitos da região utilizam as redes sociais para declarar apoio a Flávio Bolsonaro, embora as administrações também sejam beneficiadas por investimentos do atual Governo Federal e da Itaipu Binacional. E eles reconhecem isso.
Evidentemente, recursos públicos não compram apoio político. Nem deveriam. Prefeito algum tem obrigação eleitoral com o governo que leva investimentos para o município.
Mas o contraste revela uma questão que considero central: como um governo consegue chegar aos municípios com recursos e programas, mas os aliados não conseguem demonstrar a mesma presença na articulação política regional?
Não estou falando de confundir gestão pública com campanha eleitoral. Estou falando de diálogo político, organização partidária e capacidade de construir relações.
Essa percepção também aparece no cenário estadual. Enquanto o campo de Flávio Bolsonaro reúne apoios e procura apresentar uma estrutura coordenada, a mobilização em torno de Lula parece depender, em parte, de iniciativas independentes que nem sempre se conectam publicamente às lideranças partidárias.
E há mérito nessa participação espontânea. Mas ela também expõe uma pergunta incômoda: onde estão as estruturas políticas que deveriam dialogar com esses movimentos?
Por outro lado, não podemos confundir adesão de prefeitos com unidade permanente. A política também é feita de alianças circunstanciais, e uma fotografia de lideranças reunidas não comprova a existência de um projeto comum para além da eleição.
Talvez o retrato mais fiel de Guarapuava seja justamente esse: uma campanha apresenta a força de lideranças; a outra revela a iniciativa da militância. Mas nenhuma dessas imagens, isoladamente, explica a profundidade da articulação política.
O que chama a atenção não é apenas quem ocupa as ruas ou aparece nas redes sociais. É a distância entre presença institucional, representação partidária e participação popular.
Porque, na política, ter recursos não significa ter articulação. Reunir lideranças não significa ter unidade. E ocupar as ruas não significa, necessariamente, estar organizado.
No fim, Guarapuava deixa uma pergunta que também vale para o Paraná: há muita gente fazendo campanha. Mas quem, de fato, está conversando com quem?