Hoje decidi falar sobre o medo. Porque nunca se falou tanto em liberdade e, ao mesmo tempo, tanta gente teve receio de dizer o que pensa. Medo de perder, de desagradar, de contrariar quem tem poder. Na política, o medo ganhou discursos, lados e bandeiras. Cada grupo aponta as ameaças que enxerga no outro, mas raramente reconhece as próprias.
E aqui não se trata de direita ou esquerda. Os medos são diferentes. Parte da direita teme perder valores, tradições e segurança. Parte da esquerda teme perder direitos, e dessa forma, ver a democracia enfraquecida. São preocupações que merecem respeito, mas que também podem ser exploradas politicamente. Afinal, o medo mobiliza, divide e, muitas vezes, cala.
O curioso é que todos parecem enxergar as contradições dos adversários, mas poucos reconhecem as próprias. Quem defende a liberdade nem sempre tolera opiniões contrárias. Quem prega respeito também pode desrespeitar. O que ontem era inaceitável hoje ganha justificativa, dependendo de quem pratica. E assim, a coerência vai perdendo espaço para a conveniência.
Mas o medo não está apenas em Brasília. Está nas pequenas cidades, nos empregos, nas repartições e nas relações pessoais. Está em quem evita criticar uma administração para não perder oportunidades. Em quem concorda para continuar pertencendo a um grupo. Em quem conhece uma injustiça, mas prefere não se envolver. Nem todo silêncio é concordância. Às vezes, é sobrevivência.
O perigo começa quando esse silêncio vira hábito. Quando discordar parece traição, questionar vira afronta e cobrar explicações exige coragem. Enquanto os lados disputam narrativas, problemas como saúde, educação e custo de vida continuam exigindo respostas. E fico pensando: de que adianta defender tanto a liberdade se, no cotidiano, tantas pessoas ainda sentem medo de exercê-la?
No fim, o mais assustador talvez não seja o medo, mas aquilo que aceitamos por causa dele. Uns temem as mudanças, outros, que nada mude. O poder troca de mãos, governos passam e bandeiras se alternam. Mas uma sociedade que aprende a aceitar tudo para não desagradar corre o risco de perder a própria voz. Porque a pior forma de submissão talvez não seja quando alguém nos manda calar, mas quando já nem precisamos receber essa ordem. Aprendemos a nos silenciar sozinhos.