quinta-feira, 27 de mar. de 2025
Blog da Cris Guarapuava

Os gritos que não podemos ignorar 

Os gritos ecoaram pelas paredes da Câmara de Vereadores de Guarapuava nesta terça (25). Por um instante, silenciaram tudo ao redor.

Homem agride esposa com ripa e mordida no Boqueirão

Homem agride esposa com ripa e mordida no Boqueirão

Os gritos ecoaram pelas paredes da Câmara de Vereadores de Guarapuava nesta terça (25). Por um instante, esse gritos silenciaram tudo ao redor. Em meio a discursos e protocolos, foram as vozes desesperadas de mulheres vítimas de violência que tomaram o plenário. Vídeos exibidos pela Polícia Militar mostraram a realidade crua: mulheres sendo agredidas, humilhadas, pedindo socorro. Gritos que arrepiam, que não deveriam mais existir. Mas que seguem pulsando, abafados por portas trancadas e estruturas omissas.

Só na última semana, de acordo com a PM, 45 casos de violência contra a mulher foram registrados na região de Guarapuava. Quarenta e cinco histórias de dor, medo e silêncio. São números que assustam, mas que por vezes se perdem na frieza das estatísticas. Para se ter uma ideia, conforme a PM, em 2024 houve o registro de 1.731 boletins de ocorrências de violência doméstica. Por isso, ver e ouvir essas agressões, ainda que em vídeo, foi um choque necessário. Porque quando o socorro vem tarde, ou nunca, o resultado é a destruição de vidas.

NOS ESPAÇOS DE PODER

Mas a violência contra a mulher não está apenas nas casas onde o grito se cala. Ela também habita os espaços de poder, inclusive aquela mesma Câmara em que os vídeos foram apresentados.

A violência de gênero na política é real. Está nas interrupções constantes, nas deslegitimações disfarçadas de ironia, nos olhares de desdém, nas tentativas de silenciamento. Está nos bastidores, nas redes sociais e nas próprias estruturas institucionais. Mulheres que se levantam para ocupar cargos públicos, especialmente no legislativo, enfrentam não apenas o desafio de legislar. Mas também o de resistir à hostilidade do ambiente.

A presença feminina na política ainda é, muitas vezes, combatida com as mesmas armas simbólicas que alimentam a violência doméstica: controle, desvalorização, invisibilização. A Câmara, palco do debate público, também precisa ser espaço de respeito e equidade. Não basta ouvir os gritos de socorro lá fora, se as vozes femininas continuam sendo interrompidas, ignoradas ou atacadas lá dentro.

ESFORÇO COLETIVO

Combater a violência contra a mulher exige um esforço coletivo. Começa pelo reconhecimento da pluralidade: ela está no corpo agredido, na mente adoecida, na liberdade cerceada e também no microfone cortado. Está nas ruas e nas salas de reunião, nos lares, nos empregos, e nas instituições.

É preciso garantir que o grito de uma mulher nunca mais seja ignorado. Seja ele de dor ou de posicionamento político. É hora de transformar indignação em ação, estatística em política pública, e silêncio em voz. A violência não pode mais fazer parte do cotidiano. Muito menos, na política.

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Cristina Esteche

Jornalista

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