Os gritos ecoaram pelas paredes da Câmara de Vereadores de Guarapuava nesta terça (25). Por um instante, esse gritos silenciaram tudo ao redor. Em meio a discursos e protocolos, foram as vozes desesperadas de mulheres vítimas de violência que tomaram o plenário. Vídeos exibidos pela Polícia Militar mostraram a realidade crua: mulheres sendo agredidas, humilhadas, pedindo socorro. Gritos que arrepiam, que não deveriam mais existir. Mas que seguem pulsando, abafados por portas trancadas e estruturas omissas.
Só na última semana, de acordo com a PM, 45 casos de violência contra a mulher foram registrados na região de Guarapuava. Quarenta e cinco histórias de dor, medo e silêncio. São números que assustam, mas que por vezes se perdem na frieza das estatísticas. Para se ter uma ideia, conforme a PM, em 2024 houve o registro de 1.731 boletins de ocorrências de violência doméstica. Por isso, ver e ouvir essas agressões, ainda que em vídeo, foi um choque necessário. Porque quando o socorro vem tarde, ou nunca, o resultado é a destruição de vidas.
NOS ESPAÇOS DE PODER
Mas a violência contra a mulher não está apenas nas casas onde o grito se cala. Ela também habita os espaços de poder, inclusive aquela mesma Câmara em que os vídeos foram apresentados.
A violência de gênero na política é real. Está nas interrupções constantes, nas deslegitimações disfarçadas de ironia, nos olhares de desdém, nas tentativas de silenciamento. Está nos bastidores, nas redes sociais e nas próprias estruturas institucionais. Mulheres que se levantam para ocupar cargos públicos, especialmente no legislativo, enfrentam não apenas o desafio de legislar. Mas também o de resistir à hostilidade do ambiente.
A presença feminina na política ainda é, muitas vezes, combatida com as mesmas armas simbólicas que alimentam a violência doméstica: controle, desvalorização, invisibilização. A Câmara, palco do debate público, também precisa ser espaço de respeito e equidade. Não basta ouvir os gritos de socorro lá fora, se as vozes femininas continuam sendo interrompidas, ignoradas ou atacadas lá dentro.
ESFORÇO COLETIVO
Combater a violência contra a mulher exige um esforço coletivo. Começa pelo reconhecimento da pluralidade: ela está no corpo agredido, na mente adoecida, na liberdade cerceada e também no microfone cortado. Está nas ruas e nas salas de reunião, nos lares, nos empregos, e nas instituições.
É preciso garantir que o grito de uma mulher nunca mais seja ignorado. Seja ele de dor ou de posicionamento político. É hora de transformar indignação em ação, estatística em política pública, e silêncio em voz. A violência não pode mais fazer parte do cotidiano. Muito menos, na política.
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