22/08/2023
Em Alta Guarapuava Segurança

Pai de um dos mortos contesta PM e diz que não houve confronto no Guabiroba

Testemunha afirma que policiais se esconderam antes da chegada dos três homens e que houve execução. Polícia Civil disse que não vai se manifestar

Cleiton Marciano da Silva, também conhecido como 'Gordo Mônica' (Foto: Arquivo Pessoal)

A versão oficial da Polícia Militar sobre a morte de três homens durante uma ação na Estrada do Guabiroba, em Guarapuava, passou a ser contestada por uma testemunha que estava no local. Ao Portal RSN, Clair da Silva, pai de Cleiton Marciano da Silva, de 27 anos, um dos mortos na ocorrência de terça (31), afirmou que não houve confronto e que os policiais teriam feito uma tocaia antes da chegada das vítimas.

Conforme a nota divulgada pelo 16º Batalhão da Polícia Militar, equipes do Pelotão de Choque cumpriam mandados de busca, apreensão e prisão na região quando três homens “resistiram à abordagem e efetuaram disparos contra os policiais”, o que teria resultado em um confronto armado. Na ação, morreram Cleiton Marciano da Silva, Pedro Henrique Andrade Ferreira, de 24 anos, e Luis Henrique Ribas, de 27 anos.

Mas Clair sustenta outra narrativa. Segundo ele, policiais já estavam escondidos no terreno quando chegou ao local para trabalhar na construção de uma casa. De acordo com o relato, ele foi abordado, levado para uma residência próxima e mantido sob vigilância, enquanto os agentes aguardavam a chegada do grupo.

“Quando eu cheguei, eles já estavam tudo escondido. Me abordaram, tomaram meu celular e me levaram para uma casa mais pra cima. Falaram que eu tinha que ficar quieto. Depois, a hora que os piás chegaram, nem desceram do carro e já meteram fogo”, disse.

TESTEMUNHA DIZ QUE OUVIU GRITOS E NEGA REAÇÃO ARMADA

Clair afirmou que ouviu o filho pedir socorro e negou que os três homens tenham reagido à ação policial. Conforme o relato, os disparos partiram dos policiais logo na chegada do veículo em que estavam as vítimas.

“Meu filho gritou três vezes por mim. Eu escutei tudo de onde eu tava. Não teve ordem de prisão, não teve abordagem, não teve confronto. Eles chegaram e atiraram”, declarou.

Ainda de acordo com ele, os policiais teriam usado viaturas escondidas atrás da construção e em meio ao mato. O pai de Cleiton também contestou a existência de armas no local. “Lá tinha ferramenta de trabalho. Nós tava construindo a casa. Não tinha arma nenhuma naquele pedaço.”

IRMÃ DE LUIS RELATA FERIMENTOS NO CORPO DO IRMÃO

Em contato com o Portal RSN, Larissa, irmã de Luis Henrique Ribas, relatou que o corpo do irmão, durante o velório, apresentava marcas que, segundo ela, indicariam agressões. “Disseram que ele não podia ser velado só com camiseta porque estava com fraturas expostas nos braços. A cabeça estava cheia de marcas, o rosto todo machucado. A gente acha que quebraram o pescoço, porque estava muito inchado”, afirmou.

Ela disse ainda que o irmão precisou ser reconhecido por impressão digital no Instituto Médico Legal (IML). “Quero saber o que realmente aconteceu. Eu acredito que poderiam ter prendido os três, não precisava matar.”

“Eu sei que meu irmão estava indo trabalhar, porque eles estavam construindo uma casa na chácara do Guabiroba. Tenho certeza absoluta que meu irmão não reagiu, ele não deve ter tido nem tempo disso”, afirmou.

PM FALA EM CONFRONTO, ARMAS APREENDIDAS E POLICIAL FERIDO

Na terça (31), a Comunicação Social do 16º BPM informou que a operação ocorreu no período da manhã na região da Estrada do Guabiroba. A corporação declarou que os três homens resistiram à abordagem, atiraram contra os policiais e foram mortos no revide. A PM também informou a apreensão de armas de fogo e disse que um policial militar sofreu ferimentos leves durante a intervenção.

Em outro comunicado, o batalhão afirmou que a ação integrou uma ofensiva contra o crime organizado e mencionou que, somada a essa ocorrência, equipes localizaram um entreposto logístico no Assentamento Banana, onde apreenderam mais de 1,4 quilo de drogas e quatro armas, entre elas carabinas adaptadas e munições de calibres restritos.

As primeiras informações repassadas à imprensa apontavam que a ocorrência havia começado por volta das 6h20. Já Clair afirmou que chegou ao local entre 8h30 e 8h40 para trabalhar e que foi surpreendido pelos policiais já escondidos na área.

PAI DIZ QUE FOI LEVADO PARA A DELEGACIA E FICOU HORAS DETIDO

Além de negar a versão do confronto, Clair relatou que foi conduzido à delegacia após a morte dos três homens.  “Me levaram pra delegacia e eu fiquei lá até as cinco da tarde. Não tinha água, não tinha comida. Só depois me deram um pouco de água.”

Ele também afirmou que, durante a abordagem, pediu aos policiais que não matassem o filho e os outros dois homens. “Eu pedia pra eles prenderem, não matarem. A polícia é pra prender, não pra matar”, declarou.

O relato inclui ainda acusações graves, como ameaças e falas atribuídas aos agentes. Pela gravidade das declarações, optamos por registrar que se trata da versão apresentada pela testemunha e que ela ainda depende de apuração oficial, perícia e eventual investigação independente.

POLÍCIA CIVIL SE DISTANCIA E DIZ QUE APENAS A PM VAI SE MANIFESTAR

Questionada pelo Portal RSN sobre eventual investigação a respeito das circunstâncias das mortes, a Polícia Civil informou, por meio da assessoria, que “sobre o confronto com a PM apenas aquela instituição se manifestará”.

O caso envolve morte em intervenção policial e passou a ter, agora, uma contestação direta da versão oficial apresentada inicialmente.

O portal também procurou novamente a Polícia Militar para comentar especificamente o relato de Clair da Silva, mas não houve novo posicionamento até a publicação desta reportagem.

CORPOS FORAM LIBERADOS PELO IML

Os três mortos na ação foram identificados como Cleiton Marciano da Silva, de 27 anos, Pedro Henrique Andrade Ferreira, de 24 anos, e Luis Henrique Ribas, de 27 anos. O Instituto Médico Legal (IML) liberou os corpos na quarta (1º), e os velórios ocorreram na Capela Mortuária Municipal Santa Cruz.

O sepultamento de Pedro Henrique ocorreu no Cemitério Municipal Central. Cleiton foi sepultado no Cemitério Municipal do Jordão. Já Luis Henrique Ribas foi enterrado no Cemitério Santo Antônio, no Morro Alto.

Familiares afirmaram que estão em contato com advogados para ingressar com medidas judiciais e pedir investigação independente sobre a ação policial. O espaço permanece aberto para manifestação da Polícia Militar, da Polícia Civil e de outros órgãos envolvidos.

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Thiago de Oliveira

Jornalista

Jornalista formado pela Universidade Estadual do Centro-Oeste. 📧 thiagodeoliveirajor@gmail.com

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