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Cena de 'As Cavalhadas'
AS CAVALHADAS

Quando a arte tem coragem de questionar o nosso tempo

Felchak em 'As Cavalhadas' traz uma reflexão sobre o papel da mulher, as disputas de poder e as contradições da sociedade contemporânea

Cristina Esteche
Cristina Esteche Jornalista
6 min de leitura

Cena de 'As Cavalhadas'

A história não precisa permanecer no passado. Pode voltar ao palco para revelar aquilo que a sociedade ainda não conseguiu superar. Foi essa a escolha da Felchak Produções ao revisitar As Cavalhadas, manifestação do folclore guarapuavano que, pelas mãos de artistas locais, ganhou uma leitura sobre poder, liberdade, intolerância e os conflitos do nosso tempo. O mérito não está apenas na releitura, mas na capacidade de encontrar, em uma tradição conhecida, questões que continuam exigindo respostas.

Há algo particularmente significativo na composição desse trabalho. Uma mãe (Rita), um casal de filhos (Davir de Daiana), uma irmã (Dody Saman) e uma amiga (Sissa) compartilham a cena no palco, reunindo gerações e experiências em torno da criação artística. A Felchak Produções demonstra que o teatro também se constrói na transmissão de saberes, na cumplicidade e no compromisso com a cultura. O talento do grupo aparece na maneira como essas relações se transformam em uma proposta de encenação com identidade própria.

A escolha dramatúrgica merece atenção. As batalhas entre mouros e cristãos deixam de representar apenas disputas históricas para expor o absurdo das guerras e das relações de dominação. Ao mesmo tempo, a montagem questiona os lugares reservados às mulheres, afirmando i direito de ocupar qualquer espaço. Não se trata de simplesmente atualizar uma narrativa, mas de confrontar valores herdados e demonstrar que a tradição também pode ser reinterpretada à luz das conquistas sociais.

Talvez uma das qualidades mais importantes do espetáculo esteja na capacidade de alcançar crianças e adultos sem estabelecer uma divisão artificial entre diversão e reflexão. A linguagem teatral permite que os pequenos compreendam questões relacionadas à liberdade e ao respeito, enquanto os adultos são provocados a reconhecer contradições que muitas vezes naturalizam. É uma escolha que revela compreensão do público e respeito à inteligência de quem assiste.

A atualidade da montagem também se impõe diante de um ambiente político em que a divergência frequentemente deixa o campo das ideias e passa a comprometer relações humanas. O episódio envolvendo uma professora doutora durante uma abordagem policial em Guarapuava, após uma comemoração eleitoral, é um exemplo das questões que atravessam esse cenário e exigem apuração responsável.

Mas o alcance do espetáculo vai além de qualquer acontecimento isolado. Está na crítica aos mecanismos de poder que, em diferentes épocas, procuram justificar a imposição da força sobre o direito.

É nesse ponto que a Felchak Produções demonstra a capacidade de fazer teatro sem transformar o palco em tribuna. As reflexões surgem da própria narrativa, dos conflitos e das escolhas de interpretação. A encenação não precisa oferecer respostas prontas nem recorrer a discursos moralizantes. O mérito está em permitir que o público estabeleça relações entre aquilo que vê e a realidade que experimenta. Essa confiança na capacidade de interpretação do espectador é também uma demonstração de maturidade artística.

A Felchak Produções merece reconhecimento não apenas pela contribuição à preservação do patrimônio cultural de Guarapuava, mas pela decisão de não tratar essa herança como algo intocável. Com As Cavalhadas, mostra que respeitar a tradição não significa reproduzi-la sem questionamentos.

Os Felchak fizeram mais do que colocar a história de Guarapuava em cena: deram a ela voz para interrogar o presente. E quando uma produção consegue fazer crianças sonharem e adultos reconsiderarem as próprias certezas, o aplauso deixa de ser apenas reconhecimento ao talento. Torna-se reconhecimento à importância da arte para a sociedade.

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