22/08/2023

Blog da Cris Política

Quando o sol se põe, Guarapuava começa a contar histórias

Enquanto a política corre atrás do futuro e ressuscita o passado, o sol oferece uma rara oportunidade de simplesmente para parar

Por-de-sol (Foto: Orlando Silva/RSN)

Neste fim de semana resolvi ter um outro tempo. Não o tempo das notícias que chegam a cada minuto, das redes sociais, das pesquisas eleitorais, das brigas e das certezas instantâneas. Resolvi desacelerar. Olhar para o céu. Talvez tenha sido influência de Douglas Zanon e do seu (dele) ‘Entre o Dia e a Noite’, monólogo que encontrou no pôr do sol uma passagem para falar de tempo, memória e das histórias que Guarapuava guarda.

Há alguma coisa profundamente humana em parar para assistir ao dia acabar. Durante o dia, tudo parece evidente: as ruas, as casas, as pessoas, os compromissos. Mas quando o sol começa a baixar, os contornos mudam, as sombras crescem e a cidade parece perder a pressa. É como se, por alguns minutos, ninguém soubesse exatamente se ainda estamos no dia ou se a noite já começou.

Zanon percebeu esse instante e fez dele um portal. Por ele entram a serpente que dorme sob a Catedral, o degolado, o monge João Maria, a Lagoa das Lágrimas, Guairacá e tantas outras histórias que atravessaram gerações. Lendas que talvez não precisem ser verdadeiras como um documento é verdadeiro. São verdadeiras de outro jeito: carregam os medos, os desejos, as esperanças e os mistérios de quem viveu antes de nós.

Talvez uma cidade sobreviva justamente assim. Não apenas pela ruas, prédios ou monumentos, mas pelas histórias que alguém contou um dia e que outra pessoa decidiu não deixar morrer. O passado não volta como fotografia. Volta como lembrança, como lenda, como uma voz distante. A gente não encontra o passado; encontra a luz que ele deixou.

CAMPANHA É DISPUTAS DE HISTÓRIAS

E foi impossível não pensar na campanha eleitoral. Também estamos diante de uma disputa de histórias. Cada candidato traz uma versão do passado e uma promessa de futuro. Os personagens antigos retornam, os fantasmas são novamente convocados, velhas acusações reaparecem, velhas promessas ganham novas embalagens. Mudam os slogans, mudam os cenários, mas algumas histórias parecem condenadas a ser contadas outra vez.

A diferença é que as lendas de Guarapuava podemos ouvir com encantamento. As lendas políticas precisamos ouvir com desconfiança. Uma história repetida muitas vezes pode ganhar aparência de verdade. Uma promessa repetida pode parecer certeza. Uma versão conveniente do passado pode se transformar, pela força da repetição, numa espécie de memória oficial. Por isso, em época de eleição, talvez seja necessário escutar mais devagar.

O sol, felizmente, não faz campanha. Não promete, não acusa. Não publica pesquisa e não precisa convencer ninguém. Apenas nasce, atravessa o céu e se põe. E quando olhamos para ele desaparecendo no horizonte, estamos vendo uma luz que já percorreu uma distância. Há algo de bonito nisso: o pôr do sol é, de certa maneira, uma imagem do passado chegando aos nossos olhos.

Cada um de nós guarda os próprios pores do sol. O da infância, o de uma viagem, o de uma estrada, o de uma varanda, o de alguém que já não está mais aqui. Às vezes basta uma determinada cor no céu para que uma pessoa volte vinte, trinta anos no tempo. Talvez seja por isso que o crepúsculo seja tão apropriado para falar de memória. A luz diminui, mas algumas coisas começam a aparecer.

OUTRO RITMO

Neste fim de semana, portanto, quero outro ritmo. Enquanto os candidatos correm contra o calendário, quero olhar para o relógio sem pressa. Enquanto as redes discutem quem ganhou o dia, quero descobrir como termina a tarde. Há uma vida inteira acontecendo entre uma manchete e outra: o café sobre a mesa, uma conversa na calçada, uma criança brincando, uma árvore balançando com o vento. E há uma cidade inteira respirando enquanto nós discutimos quem terá razão.

Talvez essa seja a pequena lição que levo do monólogo de Douglas Zanon: o tempo não precisa de nós para continuar passando. Depois da campanha vem a segunda-feira. Depois do discurso vem o silêncio. Após a promessa vem a realidade. E depois de tudo vem a vida. Essa coisa imensa que não cabe em slogan, pesquisa ou palanque. Entre o dia e a noite existe um instante em que a luz ainda está presente, mas já começa a desaparecer. Neste fim de semana, quero ficar um pouco ali. Apenas olhando. Porque o sol vai se pôr, as histórias continuarão sendo contadas e o tempo, como sempre, seguirá em frente.

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Cristina Esteche

Jornalista

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