Reportagem: com a capital enfraquecida e a manutenção do supermando, estadual começa cheio de dúvidas

por Cleyton Lutz

O Campeonato Paranaense de 2010 começa hoje, dia 16, com uma característica diferente em relação às edições anteriores: pela primeira vez em 15 anos, a competição se inicia com apenas um time do estado na elite nacional. Enquanto os clubes da capital estão enfraquecidos – não custa nada lembrar que o único representante do Paraná na Série A do Brasileiro, o Atlético, brigou para não ser rebaixado nos últimos dois anos – terão as equipes do interior capacidade para surpreender, levando em conta, principalmente, que as mesmas tiveram mais tempo para se preparar?

Além da questão técnica, a competição esteve ameaçada de nem começar na data marcada, já que o Foz entrou com um recurso Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) pedindo os pontos de um jogo do ano passado válido pela segunda divisão, o que daria a vaga na elite equipe da Fronteira. A Federação Paranaense de Futebol (FPF) garantiu o início da competição para o fim de semana, mas em se tratando de FPF, é sempre bom ficar com um pé atrás… Certo mesmo é a manutenção do “supermando”, que dá poderes ilimitados ao melhor time da primeira fase. Apesar de desagradar a todos, o regulamento foi garantido em respeito ao Código do Torcedor. Azar de quem terminar em oitavo na primeira fase.

A capital enfraquecida

O Paraná Clube já joga a segunda divisão há três anos. O Coritiba foi rebaixado no ano do centenário do clube – foi a segunda queda em cinco anos. O Atlético segue na Série A do Campeonato Brasileiro, mas lutou contra o rebaixamento nos últimos dois anos. “Os times da capital, que deveriam sobrar, chegam fragilizados de uma temporada ruim no Brasileiro. O Atlético mudou pouco, pode sobrar no Paranaense, mas deve sofrer no Brasileiro. O Coritiba sofreu um baque grande – ou se junta e se supera, ou se encolhe e perde o rumo de vez. O Paraná parece time do interior, cada campeonato é um time novo, impossível fazer previsão”, comenta o editor de esportes do jornal Gazeta do Povo, Leonardo Mendes Júnior.

No Atlético, o elenco mediano de 2009 recebeu poucos reforços e de qualidade questionável como o volante Alan Bahia, o meia Tartá e o atacante Bruno Mineiro. Enquanto isso, o Coritiba, sem dinheiro devido ao quebra-quebra do Couto Pereira e diminuição nas cotas de televisão, perdeu jogadores importantes como os meios-campos Carlinhos e Marcelinho Paraíba, embora tenha mantido a dupla de ataque Marcos Aurélio e Ariel. Já o Paraná Clube aposta mais uma vez em jogadores pouco conhecidos, algo que não dá certo desde 2006. “A responsabilidade do Atlético será muito grande já que ó o único time do estado na Série A. Já o Coritiba vai enfrentar uma luta novamente para voltar à elite. E o Paraná passou por uma grande reestruturação, é difícil prever alguma coisa”, analisa o editor de esportes e locutor da rádio Banda B AM, Marcelo Ortiz.

Sem grandes contratações nos times de maior poder aquisitivo, o campeonato promete ser disputado, embora a estrutura do Trio de Ferro da capital seja visivelmente superior a das equipes do interior do estado. “Não sei do ponto de vista técnico, mas a expectativa geral é de um campeonato equilibrado”, ressalta Ortiz. Aí reside a esperança dos times do interior, Corinthians Paranaense de São José dos Pinhais e Rio Branco de Paranaguá.

A força do interior

Apesar de o título só ter escapado do Trio de Ferro três vezes nos últimos 20 anos, os primos pobres do futebol paranaense podem surpreender. “Essas equipes mantiveram uma boa base e tiveram mais tempo para se preparar, algumas devido ao fato de não terem calendário no segundo semestre”, destaca o Ortiz. Entre as possíveis surpresas, ele destaca Rio Branco, Paranavaí, Engenheiro Beltrão, Toledo, Cianorte e Cascavel, além do Corinthians Paranaense. “Da equipe do ano passado, apenas o Jucilei saiu”, acrescenta.

O ex-jogador e atualmente comentarista, Dionísio Filho, por sua vez, aposta em Paranavaí e Operário de Ponta Grossa, comandados por Itamar Bernardes e Norberto Lemos, respectivamente. “O Paranaense é diferente dos demais estaduais pelo equilíbrio, aqui não existem só os grandes, basta lembrar o Paranavaí, campeão em 2007”, opina.

Já Mendes adota uma postura um pouco mais cautelosa. “Muito difícil saber. Todo mundo remontou o time. Você passa os olhos nas listas de reforços e não conhece quase ninguém. Historicamente, o Iraty faz contratações boas, o que pode ser um indício bom. O Nacional, que foi quarto colocado ano passado, trouxe um time novo essa semana, impossível saber o que vai dar. O Operário tem a força da torcida, mas aí não é capaz de arrumar o gramado a tempo. O Serrano vem de uma ascensão animadora, mas primeira divisão é diferente”, afirma.

Mas o fantasma das equipes do interior pode ser outro: o regulamento. Se conseguirem se classificar em posições ruins – dos 14 da primeira fase, oito seguem a fase final da competição – os times correm o risco de jogar pouco – ou nem jogar – em casa, sem chance de brigar pelo título e tendo um enorme prejuízo financeiro. Caso do Paranavaí em 2009. “Imagina se um time desses fica em sétimo ou oitavo e os quatro da capital se classificam. O clube vai ter que mudar sua sede para Curitiba”, comenta Dionísio. Entra em cena, então, o famigerado “supermando”.

O supermando

Depois de um ano, dizer que a fórmula de disputa é ridícula já soa como redundância. Para satisfazer o Estatuto do Torcedor, o regulamento do ano passado foi mantido. Nele as 14 equipes jogam entre si em turno único. Enquanto os quatro últimos são rebaixados, os oito melhores vão a fase decisiva, jogando novamente em turno único. É aí que começam os problemas. Além de garantir dois pontos de bonificação – o segundo colocado leva um – o melhor time da primeira fase faz os sete jogos do octogonal final em casa. O segundo colocado faz seis; o terceiro, cinco e assim por diante, até o oitavo, que jogará não atuará uma vez sequer diante de sua torcida.

“É um grande equívoco, que mais uma vez não foi arrumado”, lamenta Ortiz. “A igualdade do campeonato acaba na primeira fase. Concordo que as melhores equipes levem algum tipo de vantagem. Mas a injustiça é muito grande com quem terminar em sétimo ou oitavo”, analisa.

Mendes endossa. “A maior aberração da história do futebol paranaense – e olha que já aconteceu muita coisa errada. Se houvesse o mínimo de vergonha na cara, o pai da criança tinha pedido o boné na federação na hora, não precisava nem mandar embora. O jeito é pagar o mico mais um ano e torcer para que os iluminados dirigentes façam um regulamento que preste”, protesta.

O editor da Gazeta do Povo destaca também o excesso de equipes na competição. “Tem muito time. Muito time de dono, de empresário, que não acrescenta nada ao campeonato. Só ocupa data e vira problema potencial no tapetão”, diz – no total serão 14 clubes disputando o campeonato.

Esse é o Campeonato Paranaense de 2010. Com os times da capital em baixa, sem grandes estrelas, com um regulamento esdrúxulo e prometendo muito equilíbrio – até o fim da primeira fase, é bom que se diga. Mendes resume bem o caos em que o futebol paranaense – e seu campeonato – se transformou nos últimos anos. “No cenário atual, se o campeonato começar na data, não parar e terminar sem confusões extracampo, estará de bom tamanho”.

O Campeonato Paranaense

– Participantes: 14 (Atlético-PR, Cascavel, Cianorte, Corinthians-PR, Coritiba, Engenheiro Beltrão, Iraty, Nacional, Operário, Paraná, Paranavaí, Rio Branco, Serrano, Toledo);
– Início/término: 16 de janeiro/29 de abril;
– Fórmula de disputa: as quatorze equipes jogarão entre si, apenas em turno. Os oito primeiros colocados se classificam para a Fase Final. Nela, os oito clubes jogam novamente em turno único. Quem somar mais pontos, nesta fase, será o campeão. O primeiro colocado da primeira fase leva dois pontos extras para a fase final e o segundo colocado entra com um ponto extra. Os quatros últimos colocados na classificação geral serão rebaixados para a segunda divisão de 2011.
– Televisão: Rede Globo RPC/pay per view (PPV) SporTV ;
– Últimos dez campeões: Atlético (2000), Atlético (2001), Iraty (2002), Coritiba (2003), Coritiba (2004), Atlético (2005), Paraná (2006), Paranavaí (2007), Coritiba (2008) e Atlético (2009).

Foto: Globo.com

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