22/08/2023
Blog da Cris Política

Respostas ensaiadas, cola’ na mão e o velho refrão contra o PT

Com anotações na mão esquerda, discurso calculado, candidato ao Senado recorre ao PT e a Gleisi como contraponto recorrente durante sabatina na RPC

Deltan Dallagnol (Foto: reprodução/Youtube)

Deltan Dallagnol chegou à sabatina da RPC nesta quarta (2) preparado para responder, mas também para repetir. Com anotações na mão esquerda, discurso organizado e pouca disposição para sair do roteiro, o candidato ao Senado recorreu várias vezes ao mesmo expediente: quando pressionado, a conversa acabava voltando ao PT.

E, dentro desse roteiro, Gleisi Hoffmann apareceu como personagem recorrente. O recurso é politicamente conhecido e eficiente. Em vez de permanecer apenas no terreno da pergunta, Deltan frequentemente ampliava a resposta até reencontrar um adversário familiar. O PT surgia como explicação, comparação ou elemento de contraste. Gleisi, que também disputa o Senado pelo Paraná, era mencionada como símbolo desse campo adversário.

A estratégia ajuda a manter a base mobilizada. Mas também produz uma sensação de repetição: diante de diferentes assuntos, o refrão parecia o mesmo a culpa está do outro lado. Isso ficou ainda mais evidente porque a entrevista tratou de temas que exigiam explicações sobre as próprias escolhas de Deltan. Uso de recursos partidários, alianças políticas, relação com o PL, Valdemar Costa Neto e a situação eleitoral estavam entre os assuntos.

CULPA É DO PT

Em vários desses momentos, a resposta deixava de ser apenas sobre Deltan e passava rapidamente a ser também sobre o PT. Politicamente, é uma forma de defesa bastante funcional: desloca o candidato da posição de quem precisa explicar para a posição de quem acusa.

A postura corporal acompanhava esse esforço de controle. Deltan mantinha as anotações à mão, gesticulava com mais intensidade quando queria enfatizar uma tese e demonstrava maior contenção quando a pergunta tocava as próprias contradições.

Não é possível concluir intenção ou insegurança apenas pela linguagem corporal. Mas é possível observar uma performance bastante treinada. Ele parecia saber exatamente quais temas poderiam colocá-lo em dificuldade e tinha respostas preparadas para conduzir a conversa de volta a terrenos mais confortáveis.

CAMPANHA EXIGE MUITO MAIS

O problema é que uma campanha ao Senado exige mais do que identificar adversários. Deltan já não é apenas o ex-procurador da Lava Jato que construiu projeção política enfrentando o PT. Hoje, precisa explicar sas próprias alianças, decisões e mudanças de posição.

Quando transforma Gleisi e o PT em resposta recorrente, corre o risco de deixar em segundo plano a pergunta mais importante sobre a própria candidatura: o que ele próprio pretende representar no Senado para além da oposição aos adversários de sempre? Mas, para o eleitor que espera propostas, coerência e respostas diretas, ficou uma impressão difícil de ignorar: muda a pergunta, muda o tema, mas o refrão permanece.

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Cristina Esteche

Jornalista

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