22/08/2023

A epopeia dos cossacos que guardam a história em Prudentópolis

A Irmandade dos Cossacos revive em 2026 uma tradição de 70 anos que une a superação dos imigrantes à guarda do Santo Sudário em Prudentópolis

Irmandade Cossaca (Foto: divulgação)

Em meio às colinas do Paraná, onde o sotaque carrega a herança do Leste Europeu e as cúpulas douradas das igrejas cortam o horizonte, um ritual de bravura e devoção resiste ao tempo. Prudentópolis, a “Ucrânia Brasileira”, prepara-se para a Páscoa com o vigor de quem guarda um tesouro. Por trás dos muros da Paróquia São Josafat, uma tradição de 71 anos une a bravura dos antigos guerreiros ucranianos à devoção religiosa. Ritual que transforma a Páscoa paranaense em um cenário digno de um épico histórico.

Entre a sexta (3) e o domingo (5), o que se verá não é apenas um evento religioso, mas o auge de uma jornada que começou com discos arranhados e o trauma da guerra, e que hoje se consolida na Irmandade dos Cossacos de Prudentópolis, a pioneira do gênero no Brasil.

André Morskei, presidente da Irmandade Cossaca (Foto: Nossa Gente)

A semente plantada em 1954, no salão paroquial Katchaniulka, onde hoje funciona a Escolinha Nossa Senhora do Patrocínio, germinou.  Naquele ano, o embrião do que viria a ser o Grupo Vesselka ensaiava as primeiras danças típicas em condições heróicas. De acordo com o atual presidente da Irmandande, André Geraldo Morskei, como o assoalho era de madeira, cada salto dos dançarinos fazia a agulha do toca-discos de 78 rotações pular, interrompendo a música.

A música das danças típicas vinha de discos de 78 rotações e a agulha insistia em pular cada vez que o assoalho de madeira vibrava com o sapateado dos jovens.

A PRIMEIRA GUARDA

Foi nesse cenário que surgiu a figura de Vassyl Kostachuk. Imigrante marcado pela dor, Vassyl fugiu do regime comunista na Ucrânia por tubulação de esgoto, deixando tudo para trás. De acordo com relatos da época, o amargor de nunca mais ter notícias da família o impediu de sorrir até o fim da vida. Contudo, foi essa resiliência que idealizou, em 1955, a primeira “guarda” para a Plastianetchia (Santo Sudário) na Sexta-feira Santa. A missão principal é a guarda do Santo Sudário. Os membros se revezam em turnos de 15 minutos, mantendo uma postura de prontidão e respeito enquanto os fiéis veneram a imagem.

Sem recursos, a primeira vigília foi um exercício de criatividade: as espadas eram de madeira e as botas foram emprestadas do açougue local, cuidadosamente engraxadas. Anos depois, o Sr. Antonio Michalouski usaria lâminas de serra-fita para forjar as primeiras espadas de metal da irmandade, pintadas de preto com pontas prateadas.

REFORMULAÇÃO

Irmandade Cossaca (Foto: divulgação)

Após décadas sob a guarda da Congregação Mariana e do Grupo Vesselka, o grupo passou por uma reformulação profunda em 2008. Sob a liderança de nomes dedicados como Rafael Malovski, a Irmandade ganhou autonomia jurídica e estatuto próprio. Foi nessa época que o grupo buscou a fidelidade histórica absoluta: durante uma turnê do Vesselka pela Ucrânia, adquiriram um sabre original para servir de molde para as armas atuais, fabricadas sob encomenda no Rio Grande do Sul.

Atualmente, a Irmandade não é apenas um grupo folclórico, mas uma organização estruturada e devidamente registrada. A atuação é pautada por um regulamento interno rigoroso que reflete o espírito militar dos antigos cossacos. Conforme André, mais de 150 homens, divididos em 10 divisões rigorosamente organizadas, renovam anualmente um juramento: “estar presente na Páscoa para realizar seu ato de fé e nunca abandonar o grupo”. De acordo com André, trata-se de um símbolo da lealdade cossaca que, historicamente, preferia a morte à escravidão.

Para ser um Cossaco, não basta vestir o traje. O novo membro faz um juramento onde se compromete a estar presente em todas as Páscoas em Prudentópolis para realizar seu ato de fé. O lema é claro: “Crer em Cristo e ter coragem”.

SÁBADO DE ALELUIA É O ÁPICE

O ápice visual para os visitantes ocorre no Sábado de Aleluia. Conforme a programação, após a Celebração da Ressurreição, às 19h, os cossacos recriam uma pequena aldeia ucraniana no pátio do Centro Paroquial. Com carroças, ferramentas de época e cabanas, eles fazem apresentações artísticas que transportam o público para as estepes ucranianas, honrando os guerreiros que protegiam o território de invasões bárbaras.

Ao caminhar pela Paróquia São Josafat nesta Páscoa, o visitante não verá apenas figurantes, verá herdeiros de uma história de superação que, entre o brilho das espadas e o silêncio da vigília, garantem que a alma da Ucrânia continue pulsando forte no coração do Paraná.

PROGRAMAÇÃO

Sexta: 9h – Vigília dos Cossacos junto ao Santo Sudário;

Sábado: 8h às 17h – Bazar de Páscoa e Benção das Cestas (Pêssankas e alimentos);

21h – Grande Apresentação Artística dos Cossacos na Aldeia Ucraniana;

Domingo: 8h – Divina Liturgia de Ressurreição.

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Cristina Esteche

Jornalista

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