22/08/2023

Ao som da memória, ‘Raízes Sonoras’ começa a revelar a alma musical de Guarapuava

Gravados na Cabana do Lago os primeiros episódios do projeto reúnem músicos, histórias, reencontros e a volta de Orlando Silva às câmeras após mais de 20 anos


Por trás das câmeras do Raízes Sonoras (Foto: Thiago de Oliveira/Raízes Sonoras)

Guarapuava acordou cedo nesse fim de semana, para ouvir a própria memória. Era 8h quando a movimentação começou na Cabana do Lago, no Jordão, em meio ao frio e à chuva que marcavam o clima lá fora. Do lado de dentro, porém, o cenário era outro. Havia madeira aquecida pelo fogão à lenha, cheiro de pinhão assando, instrumentos musicais e objetos antigos. Assim como uma equipe empenhada em transformar lembranças, reencontros e canções em registro audiovisual.

Gilson Boschiero e Nana Felchak (Foto: Ana Clara de Sá Gaspar/Raízes Sonoras)

Foi nesse ambiente, entre o rústico e o afetivo, que começaram as gravações dos primeiros episódios de “Guarapuava em Frequência – Raízes Sonoras da Terra”. O projeto terá oito episódios dedicados a diferentes faces da música que compõe o som da cidade. A série será exibida nas redes sociais do Portal RSN e também em perfil próprio no Instagram.

Orlando Silva em cena com astros do rock guarapuavano (Foto: Thiago de Oliveria/Raízes Sonoras)

Conforme a RSN já publicou, a proposta é destacar artistas locais, histórias e influências. Manifestações que ajudam a formar a identidade cultural guarapuavana, com gravações em cenário rústico na Cabana do Lago. De acordo com o projeto, a produção mobiliza diretamente uma equipe de 10 pessoas. Enquanto técnicos cuidavam da montagem do estúdio, da luz, do enquadramento, dos detalhes de cena e da ambientação, a cozinha também virava parte essencial da narrativa.

Equipe responsável pelo projeto (Thiago de Oliveira/Raízes Sonoras)

Aqui, os pratos fazem parte da narrativa cultural (Foto: Thiago de Oliveira/Raízes Sonoras)

Duas pessoas se revezavam no preparo do café da manhã, dos lanches, do almoço, da comida servida aos convidados e do jantar. O fogão à lenha não era apenas apoio: era personagem. Nele, o fogo crepitava, o pinhão assava e o calor parecia sustentar a atmosfera de casa, de encontro e de raiz. No cenário, cada elemento parecia ter sido escolhido para conversar com a proposta do projeto. Tudo, conforme descreve a produção:

O que se via era uma gravação atravessada por afetos, improvisos, risos, abraços e pela emoção de músicos que, em alguns casos, não se encontravam havia mais de 20 anos.

Wellington Sebrenski e Francielle Rodrigues garantiram o sabor da terra aos convidados (Foto: Thiago de Oliveira/Raízes Sonoras)

Perto do fogo, as histórias ganham ainda mais vida (Foto: Ana Clara de Sá Gaspar/Raízes Sonoras)

O RETORNO

O retorno de Orlando Silva às câmeras dá ao projeto um peso simbólico particular. Conforme a história dele, o músico guarapuavano volta ao audiovisual depois de mais de duas décadas longe da televisão. No passado, Orlando marcou presença na TV Araucária, onde atuou ao lado de Orivaldo Chagas, o Bolo, nos programas “Tribomania” e “Companhia Musical”. Espaços que ajudaram a dar visibilidade a artistas e movimentos culturais locais.

Agora, conforme ele diz, o retorno não tem apenas o sabor da nostalgia. Tem também a força de uma atualização histórica. Isso porque, Orlando volta em outro tempo, diante de outras câmeras, para outro público e em outra lógica de circulação. A televisão local, que antes centralizava a visibilidade, dá lugar às redes sociais, aos vídeos curtos. Além dos perfis digitais e à possibilidade de a memória guarapuavana atravessar novas audiências.

Me reencontro com minhas raízes agora nessa nova fase de tecnologia, aproveitando a eclosão das redes sociais. Nunca me senti tão feliz. Meu povo lindo, estou de volta e vou ser a sua melhor companhia.

A fala revela mais do que entusiasmo pessoal. Ela traduz uma mudança de época. O que antes dependia de grade de programação, sinal de TV e horários fixos agora ganha outra dinâmica: a cultura local pode circular no celular, ser compartilhada por famílias, alcançar antigos moradores, reencontrar músicos, provocar lembranças e abrir espaço para novas gerações.

Orlando valoriza desde a antiga até a nova geração dos sons de Guarapuava (Foto: Lily Horst/Raízes Sonoras)

Na Cabana do Lago, esse encontro de tempos apareceu de forma concreta. Havia músicos experientes revendo antigos parceiros, artistas mais jovens descobrindo trajetórias que não viveram.

São histórias sendo contadas entre uma gravação e outra, e uma cidade sendo reconstruída pela escuta.

Como descreveu Orlando, trata-se de uma verdadeira aquarela musical e de memórias em Guarapuava.

FOMENTO À CULTURA

O projeto tem apoio da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura, a PNAB, política pública instituída pela Lei nº 14.399/2022 e voltada ao fomento cultural em estados, municípios e Distrito Federal.

Nesse sentido, Raízes Sonoras também nasce como exemplo de como políticas públicas de cultura podem sair do papel e chegar a territórios concretos, com gente, comida, música, memória e trabalho. O apoio financeiro não se resume à viabilização técnica de uma série. Ele ajuda a preservar narrativas que, sem registro, muitas vezes permanecem apenas na lembrança de quem viveu.

Ao reunir artistas, equipe de produção, cenário afetivo e uma figura histórica da comunicação musical local, o projeto aponta para algo maior: Guarapuava não está apenas gravando programas. Está organizando parte da própria memória sonora. E faz isso sem esconder o frio, a chuva, o cheiro do pinhão, o cansaço da montagem e a emoção dos reencontros.

Mimo (Foto: Lily Horst/Raízes Sonoras)

Conforme Orlando Silva, o Raízes Sonoras mostram que “uma cidade também pode se reconhecer pelo som que produz, pelas vozes que guarda e pelas histórias que decide contar”.

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Cristina Esteche

Jornalista

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