22/08/2023

Mercedes Pilati resgata as raízes de Turvo em Auto de Natal

Auto de Natal, funde a história de Turvo à narrativa bíblica, transformando a colonização em um espetáculo de identidade e resistência cultural

Auto de Natal (Foto: Gralha Azul)

No coração do Paraná, onde o horizonte de Turvo se divide entre a herança dos desbravadores e a rapidez da era digital, uma mulher decidiu que o futuro da cidade dependia do resgate do passado. Aos 78 anos, a atriz e pedagoga Mercedes Pilati não apenas guarda a memória de um dos fundadores do município. Ela a coloca no palco, transformando a história da colonização em um espetáculo de fé, suor e arte.

A representação do trabalho, conforme a atriz, árduo e imprescindível para a sobrevivência, leva-nos a refletir sobre o “nosso progresso. Sem deixar de valorizar e respeitar a nossa cultura e história.

Desenvolver valores como a responsabilidade, a lealdade, amizade e justiça alimenta o sonho de um futuro de verdadeira paz e fraternidade.

A apresentação deste  espetáculo ocorre neste domingo (14) às 17h30 no Parque Ambiental. A direção geral de Mercedes Pilati, conta com produção da Casa Gabriel e Luiza Pilati e elenco. A Prefeitura apoia o espetáculo, de acordo com Pilati.

A atriz Mercedes Pilati (Foto: Gralha Azul)

Nascida em 1947, Mercedes é filha de Gabriel Pilati, figura central na fundação da sede municipal, e da professora Luiza Schmeichel Pilati. A veia artística, contudo, pulsou primeiro na sala de casa. Filha de uma mistura de sangues italiano, alemão-russo e austríaco, ela cresceu vendo a mãe transformar passagens bíblicas em dramatizações domésticas.

Formada em Artes Cênicas pela renomada Fundação Teatro Guaíra, Mercedes uniu o rigor técnico da atriz à sensibilidade da pedagogia. Em 1996, o que era para ser uma oficina de teatro na Casa de Cultura do Turvo tornou-se o embrião de um fenômeno comunitário: o Auto de Natal de Turvo.

O PRESÉPIO É AQUI!

Auto de Natal (Foto: Gralha Azul)

Diferente das encenações natalinas convencionais, o olhar de Mercedes é antropológico. No Auto de Natal de Turvo, o nascimento de Cristo se funde ao nascimento da própria cidade. O “menino” que nasce no palco simboliza cada criança da região e a esperança de um povoamento que começou em meio às matas de araucária.

O espetáculo, conforme a atriz, é uma imersão sensorial na jornada dos tropeiros dos séculos XVIII e XIX. A abertura é digna de épicos. São caravanas de cavaleiros e carroças que cruzam o cenário, evocando o espírito de Téspis, o primeiro ator da Grécia Antiga, que levava a arte dele sobre rodas. “Este é o nosso Presépio e aqui é Belém”, diz o texto que emociona gerações, reforçando que a terra sagrada é aquela onde se vive e se trabalha.

MOISACO ÉTNICO

A genialidade do texto de Pilati reside na representação dos ‘Três Reis do Brasil’, que substituem os magos do oriente por figuras que compõem o DNA paranaense. Surge então o Rei Tropeiro, ou seja, a face da imigração europeia. Já o Rei Negro faz uma homenagem direta à comunidade quilombola da ‘Campina dos Morenos’, enquanto o Rei Indígena traz o reconhecimento aos primeiros habitantes da terra, presentes na Reserva Indígena local.

Auto de Natal (Foto: Gralha Azul)

No palco, personagens da vida real ganham voz. Lavadeiras, extratores de erva-mate e madeireiros dividem a cena com anjos. Há a figura da ‘Velha’, personagem que personifica a tradição oral e a sabedoria dos antepassados.

MEMÓRIA

O Auto teve momentos marcantes de retomada. Em 2002, Mercedes refinou a obra com homenagens aos pais; em 2019, celebrou o centenário de Gabriel Pilati. Agora, em 2025, a tradição que já soma quase 30 anos prova que a cultura de Turvo é resiliente.

Portanto, o espetáculo não é apenas entretenimento. É um exercício de cidadania onde voluntários de todas as idades se tornam protagonistas da própria história. Graças ao empenho de Mercedes Pilati, Turvo descobriu que a maior riqueza não está apenas na madeira ou na erva-mate, mas na capacidade de se ver e se reconhecer através da arte.

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Cristina Esteche

Jornalista

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