22/08/2023

Rozalino: o gaiteiro que aprendeu sozinho a falar todas as línguas da música

Autodidata desde os 6 anos, Rozalino Ramos transformou uma gaita trocada por um porco em seis décadas de música sem fronteiras

Rozalino Ramos (Foto: Reprodução/Raízes Sonoras)

Rozalino Ramos tinha cinco ou seis anos quando pegou pela primeira vez uma gaitinha de boca comprada pelo irmão. Ninguém ensinou nada a ele. A música entrava pelo rádio catarinense e saía pelos dedos do menino que aprendia de ouvido, sozinho, sem professor e sem pressa.

Nascido em Anita Garibaldi, no interior de Santa Catarina, filho de pequenos agricultores, Rozalino chegou a Guarapuava em 1979. Aos 14 anos, foi atingido por um tiro de arma de fogo que resultou na amputação da perna direita. A música, que já era presença constante, se tornou também um refúgio.

DE UMA ESPINGARDA E UM PORCO, UMA GAITA MELHOR

O pai de Rozalino gostava de gaita, mas dinheiro era pouco. A solução veio na base da troca: uma espingarda e um porco por um instrumento de fole maior, mais encorpado. Foi com essa gaita que o repertório começou a crescer de verdade.

A trajetória musical ganhou corpo quando Rozalino se mudou para a cidade para estudar. Começou tocando em corais de igreja, depois em festas, até formar o primeiro grupo, Os Recentes, no bairro Santana. Na sequência veio Os Galantes, banda que ele próprio fundou e que resistiu por dez anos, com CD gravado e músicas que fizeram sucesso na região.

O GAÚCHO QUE APRENDEU NO CTG

Entre 1991 e 2000, Rozalino viveu intensamente o universo dos Centros de Tradições Gaúchas. Foram anos tocando em rodeios, animando danças de competição do folclore gaúcho e acompanhando invernadas pela região.

“Foi onde eu aprendi bastante gauchão mesmo, onde eu sedimentei a minha carreira na parte de gaúcho”, afirma.

A vivência no CTG deu a Rozalino uma base técnica sólida, mas não o prendeu a um único gênero. Hoje ele integra o grupo Trio Modão, com quem circula pela região, e também se apresenta como gaiteiro solo.

UM GAITEIRO QUE NÃO TEM SÓ UM SOTAQUE

Se o CTG deu a Rozalino as raízes, foi a estrada que deu a ele o repertório. Ele define a si mesmo como um gaiteiro eclético, capaz de tocar vanerão, forró nordestino, sertanejo, música gauchesca e até ritmos internacionais.

“Eu sempre digo que o músico brasileiro é o melhor músico do mundo, porque tem que tocar para todas as etnias”, diz.

Para Rozalino, essa versatilidade é reflexo direto da formação cultural do país. Poloneses, italianos, imigrantes de diferentes origens, além das diferenças regionais entre norte, sul e sudeste, compõem um público que pede de tudo. E um gaiteiro, de acordo com ele, precisa estar pronto para atender.

A MÚSICA QUE UNE

Além da trajetória musical, Rozalino construiu uma atuação relevante na área social. Formado em Ciências Ambientais pela Faculdade Guarapuava, foi fundador e presidente por dois mandatos da Associação dos Deficientes Físicos de Guarapuava (ADFG) e coordenou o paradesporto ligado ao basquete sobre cadeira de rodas.

Passou também pela Prefeitura de Guarapuava, onde atuou como auxiliar de escritório e depois como diretor da coleta e reciclagem de resíduos sólidos na Surg. Foi chefe da equipe de digitação no Banco do Brasil e funcionário da Mitra Diocesana de Guarapuava. Na TV Humaitá, criou e apresentou o programa Encontro Cultural.

Atualmente aposentado por tempo de contribuição e beneficiado pela Lei dos PCD, Rozalino mantém a RadioCar Som de Rua, microempresa de sonorização de eventos, campanhas, romarias, manifestações e rodeios.

Mas é ao instrumento que ele sempre volta.

“Um sanfoneiro, quando pega uma gaita em qualquer lugar, sempre tem público”, diz.


Rozalino Ramos é convidado do quinto episódio de Guarapuava em Frequência — Raízes Sonoras da Terra. O projeto, financiado pela Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), do Ministério da Cultura, tem estreia prevista para julho, com exibição nas redes do Portal RSN e no perfil do projeto no Instagram.

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Thiago de Oliveira

Jornalista

Jornalista formado pela Universidade Estadual do Centro-Oeste. 📧 [email protected]

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