22/08/2023
Esportes

Margem em apostas ‘outright’: como as casas de apostas precificam mercados de longo prazo?

Embora o termo 'outright' pareça complicado, seu significado é bem simples. Ele serve para se referir às apostas de longo prazo

Foto (Freepik)

Embora o termo ‘outright’ pareça complicado, seu significado é bem simples. Ele serve para se referir às apostas de longo prazo, ou seja, aquelas que são feitas em eventos que ainda vão acontecer vários dias ou meses depois que o palpite é lançado. Um exemplo claro é apostar no vencedor do Brasileirão. Mas, você já parou para pensar como elas podem envolver um cálculo bem diferente?

Definir ‘odds’ para uma partida que acontece em alguns dias pode ser bem mais simples do que um evento futuro que depende de inúmeros fatores. Ou será que não? Como o valor das cotações e a margem embutida são definidos?

Definindo o que é margem

Quando alguém começa a apostar, a primeira coisa que geralmente procura é o site de apostas ideal. Um dos critérios mais importantes de um bom site de apostas é, muitas vezes, permitir que você faça bet com bônus. Concorda que é sempre bom quando uma casa de apostas, por exemplo, garante o reembolso do valor da aposta em caso de resultado mal sucedido. Mas qual critério das casas de apostas muitos recém-chegados ignoram completamente?

A ideia de margem é uma das mais negligenciadas e, ao mesmo tempo, uma das que mais afeta os resultados das apostas esportivas. Portanto, antes de falar sobre eventos de longo prazo, vamos ver o que ela realmente significa. Suponha que você veja as seguintes ‘odds’:

Vitória do Atlético-MG Empate Vitória do Fluminense
2.57 2.92 3.25

A princípio, tudo parece certo. Mas quando você calcula a probabilidade de todas as ‘odds’, vai ver que algo fica estranho. Para ser simples, uma ‘odd’ é uma forma de representar uma probabilidade. Para transformá-la num valor em porcentagem, basta dividir 100 pelo seu valor. Ficaria assim:

Etapa do cálculo Vitória do Atlético-MG Empate Vitória do Fluminense
Odd original 2.57 2.92 3.25
Transformando em porcentagem 100/2.57 100/2.92 100/3.25
Valor em porcentagem 38,91% 34,24% 30,7%

Na prática, você concorda que a soma de todas as possibilidades de um evento deveria dar 100%? Aqui, a soma dos três (38,91% + 34,24% + 30,7%) resulta em 103,87%. Ou seja, a casa de apostas não faz as ‘odds’ representarem as chances exatas dos eventos, mas adiciona uma “gordurinha” – e é desses 3% que vem o lucro da plataforma. Esse é o modelo de negócio. Independentemente de vitória ou derrota na aposta, elas sempre pegam essa fatia.
Margem em apostas de curto prazo x Margem em apostas de longo prazo para o vencedor do Brasileirão (mesma competição) no longo prazo.

Para evitar cálculos complexos, já que a aposta de vencedor envolve os 20 times e portanto 20 ‘odds’, veja o resultado final antes de tudo: seguindo a mesma lógica de cálculo acima, ou seja, transformando cada uma em porcentagem e somando todas as porcentagens, o valor final foi de 118%, ou seja, uma margem gigante de 18%. Por que isso acontece?

Por que as margens de apostas ‘outright’ são tão altas?

No fim, a palavra “gordurinha” é perfeita para definir o que são as margens. No corpo do ser humano, a gordura tem a função de reserva de energia, sendo utilizada em momentos estratégicos.

Então faça a analogia: diante de eventos de grande incerteza, a casa de apostas aumenta essa gordurinha para se proteger contra as variações gigantes ao longo dos meses. Ao invés de lidar apenas com eventos simples em poucos dias, elas lidam com:

● Transferências atuais e a possibilidade de transferências futuras
● Questões de calendário e reorganização
● Influência maior de outras competições
● Demissões, mudanças no staff, alterações de desempenho de equipes.
● E assim por diante…

Então, como consequência, identificar margens entre 15% e até 30% em apostas de longo prazo é super comum. Para o apostador, isso significa um “imposto” sobre a aposta bem maior, mas isso não necessariamente invalida esse tipo de palpite.

Como as ‘outrights’ são calculadas? O que muda?

Parte do cálculo das ‘odds’ de longo prazo permanece o mesmo das apostas de jogo (curto prazo). Os elementos principais tendem a ser jogadores disponíveis, desempenho da equipe, previsões de especialistas, histórico passado, entre outros. Mas, aqui vários outros fatores ainda entram para o cálculo:

● ‘Outrights’ são caóticos – você sempre encontra várias ‘odds’ no mercado, como 20 equipes com chances de título – mesmo que mínimas. É um cálculo bem mais impreciso.
● Reprecificações – o preço é alterado constantemente, e não apenas pelas mudanças entre as equipes e a liga. Aqui, o efeito de uma nova aposta de um jogador é bem maior. Para ser simples, novas apostas exigem um rebalanceamento da casa de apostas. Num cenário instável como esse, ela fica bem mais suscetível. É a chamada baixa liquidez.
● Gestão constante – a gestão de apostas de longo prazo envolve reacolocação de recursos entre outras ‘odds’ como de partidas isoladas. É um trabalho um pouco mais completo, mas ao mesmo tempo, imprevisível.
● Fórmulas e cálculos além do padrão – por essa inconstância, fórmulas e modelos estatísticos diferentes acabam sendo exigidos. Por exemplo, distribuição de resultados ao longo de toda a temporada (Monte Carlo) e modelos que incluem parâmetros de incerteza, ‘machine learning’ e um dinamismo mais forte.

Em competições mais dominadas por uma ou duas equipes, como a La Liga (Espanha), essas margens podem ser menores. Num cálculo rápido feito para a temporada 25/26, por exemplo, a margem final foi de 6%, algo bem mais próximo de apostas curtas – o que na prática mostra que Real Madrid ou Barcelona devem disputar a taça – com um pequeno espaço para um terceiro elemento.

O apostador deve evitar ou privilegiar as apostas outrights?

O valor de uma aposta não está exatamente na margem ou na falta dela. Embora pagar um “imposto” de 15% ou mais no seu palpite pareça assustador, o que você deve buscar é a aposta que pareça ter uma’odd’ justa – onde você identifique lacunas entre a ‘odd real’ e sua ‘odd’ percebida após a análise.

No caso de apostas como no campeão, explorar os azarões pode ser uma estratégia, por exemplo. Mas, se você é um apostador comum e não tem grandes modelos, talvez não valha a pena, a não ser que encare como um simples teste e faça isso, de preferência, bem no início da temporada.

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Cristina Esteche

Jornalista

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