22/08/2023
Brasil Cotidiano Luana Esteche

Quando pensar custa caro e falar custa mais ainda

A crítica deveria aperfeiçoar a sociedade. Mas, muitas vezes, quem fala paga o preço que o problema deveria pagar


Cérebro humano (Imagem: DeltaWorks / Pixabay)

Como pós-doutoranda em Análise Econômica do Direito, tenho pensado em uma pergunta que atravessa a política, as instituições e a vida comum: por que tantas pessoas deixam de falar quando sabem que algo precisa ser corrigido? Não falo apenas de denunciar um crime ou uma violência. Falo de discordar, reclamar, votar contra, apontar uma incoerência, questionar uma promessa pública, dizer que uma lei sem execução concreta pode ser apenas uma resposta simbólica. Em uma sociedade madura, a crítica deveria aperfeiçoar. Mas, muitas vezes, ela é tratada como ameaça.

O silêncio nem sempre nasce da concordância. Muitas vezes, nasce do cálculo. Antes de falar, a pessoa mede o preço da palavra: vou ser ouvida ou julgada? Vou contribuir ou serei transformada em problema? Vou corrigir uma falha ou perder espaço? Essa conta aparece na mulher que denuncia e é colocada sob suspeita, no consumidor que desiste de reclamar pelo desgaste, no servidor que vê uma falha e teme isolamento, no cidadão que percebe que promessa eleitoral sem orçamento e política pública real é apenas vitrine. Na vida concreta, discordar pode custar pertencimento.

É aqui que a Análise Econômica do Direito ajuda a entender o jogo: pessoas e instituições respondem a incentivos. Se falar gera exposição, muitos se calam. Se discordar gera exclusão, muitos se adaptam. Se denunciar gera julgamento, muitos recuam. Se reclamar exige tempo, protocolo e cansaço, muitos desistem. Se aprovar uma lei rende aplauso, mas executá-la exige recurso, equipe e fiscalização, muitos preferem a foto da promessa. Quando o sistema premia a aparência e desestimula a correção, ele ensina que a conveniência pode valer mais do que a verdade.

O problema é que a sociedade diz querer participação, mas nem sempre suporta a discordância. Diz defender direitos, mas julga quem precisa deles. Diz querer instituições melhores, mas isola quem aponta as falhas. Essa é a política da mordaça em sua forma mais sofisticada: não proíbe expressamente a palavra, apenas torna sua consequência pesada demais. A pessoa pode falar, desde que aceite pagar o preço de ter falado. E, quando isso acontece, a crítica deixa de ser ferramenta de melhoria e passa a ser tratada como deslealdade.

Desconfio das unanimidades. Elas quase nunca revelam uma sociedade plenamente convencida; muitas vezes revelam uma sociedade cansada, acuada ou domesticada. Onde ninguém discorda, talvez não exista consenso, talvez exista medo. Porque nenhuma lei se aperfeiçoa sem crítica, nenhuma política pública amadurece sem cobrança, nenhuma instituição melhora sem escuta e nenhuma democracia sobrevive quando discordar passa a ser tratado como traição. Quando falar custa caro demais, não perde apenas quem se cala: perde a sociedade inteira.

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Luana Esteche

Jornalista

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