22/08/2023
Blog da Cris Guarapuava

Meu Central Park no quintal de casa

Entre folhas secas de plátanos e álamos, o quintal de casa se transforma em um Central Park íntimo, onde Nova York deixa de ser distância e vira afeto, memória e poesia

Folhas secas (Foto: Orlando Silva/ RSN)

Há dias em que Nova York não precisa de avião, passaporte ou mala pronta. Ela simplesmente atravessa o mundo, dobra a esquina da memória e vem pousar no quintal da minha morada. É aqui, entre as folhas secas dos plátanos e dos álamos, que o meu Central Park acontece. Não tem arranha-céus ao redor, nem táxis amarelos cortando avenidas, nem multidões apressadas com cafés nas mãos. Mas tem vento. Tem silêncio. Tem aquele dourado das folhas no chão, como se o outono tivesse derramado uma carta antiga sobre a terra.

Eu amo NY e nunca escondi isso. Amo a cidade que pulsa, que nunca dorme, que parece feita de coragem, pressa e sonho. Mas, de algum modo misterioso, é ela que vem até mim quando o quintal se cobre de folhas. Vem sem barulho. Vem no farfalhar seco sob os pés, na luz filtrada entre os galhos, no desenho das árvores contra o céu. Vem como lembrança de um lugar onde estive por inúmeras vezes e que continuo indo, mesmo não estando lá.

O meu Central Park não tem mapa. Tem cheiro de casa. Tem banco imaginário, caminho inventado e uma paz que se deita sobre tudo. As folhas caídas não parecem fim; parecem cenário. Cada uma delas carrega uma pequena despedida, mas também uma beleza serena, dessas que só existem quando a natureza decide falar baixo.

E então eu caminho pelo quintal, pelo bosque, como quem atravessa uma avenida famosa. Olho os plátanos, os álamos, o chão coberto de tempo, e entendo que certos lugares não pertencem apenas à geografia. Pertencem ao afeto.

Nova York mora longe. Mas quando o vento espalha as folhas secas no quintal da minha casa, ela se aproxima. Vem elegante, íntima, quase secreta.

E eu, que amo NY, sorrio.

Porque, por alguns instantes, ela também parece me amar de volta.

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Cristina Esteche

Jornalista

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