22/08/2023
Blog da Cris Brasil Esportes Política

Cuidado! O conserto pode quebrar o jogo

A Seleção parecia uma máquina falhando, mas ainda em movimento; ao tentar ajustar as peças, o comando desmontou o que ainda funcionava e transformou erros em derrota

O choro de Neymar (Foto: Getty)

A derrota da Seleção Brasileira não foi apenas um resultado ruim. Foi uma cena nacional. Daquelas que começam no gramado, atravessam a televisão da sala, inflamam as redes sociais e terminam, inevitavelmente, na conversa política do país. Contra a Noruega do gigante Haaland, o Brasil perdeu como quem perde mais do que uma partida.  Perdeu o controle emocional, a confiança automática na camisa e a velha arrogância de achar que talento individual resolve tudo.

Em ano de eleições, a camisa amarela entrou em campo carregando um peso que já não é apenas esportivo. O que um dia foi símbolo da Seleção, da infância, da Copa e da festa nacional, tornou-se também ícone de uma política fracionada. A cor que antes reunia o país diante da televisão passou a carregar ruídos, alinhamentos e recusas. Aquilo que deveria unir, hoje também separa.

Dentro de campo, havia uma expectativa clara: Vini Jr. poderia ser o salvador. Era nele que parte da torcida depositava a esperança do drible, da velocidade e da ousadia. Mas o futebol, como a política, raramente obedece ao roteiro ideal. Quando a resposta coletiva não veio, a torcida clamou por Neymar, que entrou na reta final, marcou de pênalti, desafiou o goleiro adversário e tentou incendiar uma partida que já escapava das mãos brasileiras.

Antes disso, Bruno Guimarães havia perdido o pênalti no mesmo jogo. A bola na marca da cal parecia pequena diante do tamanho da expectativa. Não era apenas uma cobrança; era uma oportunidade de mudar o rumo da tarde. Não entrou. Depois, veio também o gol perdido de frente, por Endrick, desses que parecem impossíveis de desperdiçar até que são desperdiçados. O Brasil teve chances, mas faltou precisão justamente quando a simplicidade era exigida.

O QUE VAI BEM NÃO SE DESMONTA

No banco, o técnico mascava chiclete enquanto mexia no time. E as alterações, em vez de corrigirem o caminho, pioraram a situação. Há um velho ensinamento do futebol que também serve para a vida pública: time que está indo bem, apesar de erros, não se desmonta por impulso. Ajusta-se. Corrige-se. Mas não se quebra a espinha de uma equipe quando ela ainda respira. As mudanças pareceram mais ansiedade do que estratégia.

A imagem do técnico mastigando chiclete virou metáfora involuntária de comando: muito movimento, pouca resposta. Enquanto Haaland fazia o que se espera de um grande atacante (decidir),  o Brasil parecia mastigar os próprios problemas sem conseguir digeri-los. Vini não salvou, Neymar entrou tarde, Bruno Guimarães perdeu o pênalti, o gol feito de Endrik não saiu. As substituições confundiram mais do que organizaram.

No apito final, não caiu apenas uma Seleção. Caiu a fantasia de que tradição vence jogo sozinha. Caiu a ideia de que a camisa amarela, por si só, basta. E caiu também a ilusão, tão brasileira, de que sempre haverá alguém para salvar tudo no último minuto. No futebol e na política, não há cor, nome famoso, discurso bonito ou promessa de palanque que substitua preparo, equilíbrio e responsabilidade.

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Cristina Esteche

Jornalista

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