22/08/2023
Blog da Cris exportação Política

Clã Bolsonaro exalta Trump, enquanto o Paraná paga a conta do tarifaço

Paraná está entre os mais atingidos pela taxação americana, enquanto Moro e Edson Vasconcelos sustentam uma chapa ligada ao bolsonarismo

Flavio Bolsonaro e Trump (Foto reprodução/ redes sociais)

A conta da devoção política a Donald Trump chegou e o Paraná está entre os primeiros da fila para pagá-la. A taxação dos Estados Unidos atinge diretamente as exportações paranaenses, reduz a competitividade da indústria, ameaça investimentos. Também coloca empregos em risco, especialmente nos municípios dependentes dos setores madeireiro, metalmecânico e de outras cadeias voltadas ao mercado norte-americano. Guarapuava, Bituruna, União da Vitória, Campo Largo e outros protagonizam esse cenário.

A ironia é proporcional ao prejuízo. O Paraná consolidou-se como um dos principais redutos eleitorais da direita e do bolsonarismo. Em 2022, Jair Bolsonaro venceu o primeiro turno no Estado com mais de 55% dos votos. Durante anos, aliados dele venderam a proximidade da família Bolsonaro com Trump como uma demonstração de prestígio internacional e uma vantagem para os interesses brasileiros. O que veio de Washington, no entanto, não se trata de tratamento privilegiado. Mas sim uma tarifa que penaliza justamente parte da base econômica desse eleitorado.

O clã Bolsonaro transformou os Estados Unidos em extensão do palanque. Jair Bolsonaro cultivou a imagem de aliado de Trump, Eduardo aproximou-se da direita americana e Flávio Bolsonaro, agora candidato à Presidência, foi recebido pelo republicano na Casa Branca em maio de 2026. Discutiram, inclusive, tarifas comerciais. A fotografia serviu à campanha; para as empresas paranaenses atingidas, contudo, a reunião não produziu qualquer blindagem visível.

No Paraná, Sergio Moro passou a integrar essa mesma engrenagem. Depois do rompimento com Jair Bolsonaro, reaproximou-se do grupo, dividiu palanque com Flávio e elogiou a atuação junto ao governo Trump. Agora, Moro disputa o governo estadual pelo PL com Edson Vasconcelos como candidato a vice. A chapa oficializada em 1º de agosto coloca lado a lado o principal palanque bolsonarista do Estado e o dirigente que comandou a representação da indústria paranaense durante a crise tarifária.

CONTRADIÇÃO

Edson Vasconcelos, candidato a vice-governador na chapa liderada por Sergio Moro (Foto: reprodução redes sociais)

Edson Vasconcelos conhece o problema por dentro. Como presidente do Sistema Fiep, alertou que a tarifa americana teria efeitos severos sobre a indústria do Paraná e classificou a medida como próxima de um embargo comercial. Como ‘pano de fundo’, destacou a vulnerabilidade do setor madeireiro. Agora, aparece como vice de Moro em uma chapa associada justamente ao grupo político que mais transformou Trump em referência e aliado.

A contradição é quase didática. De um lado, a Fiep denuncia perdas, cobra soluções e alerta para demissões. Do outro, um dos principais dirigentes ingressa em uma chapa que oferece palanque estadual ao herdeiro político de Jair Bolsonaro e preserva a relação simbólica com Trump. É como protestar contra a tarifa na reunião empresarial e, depois, subir no palanque dos maiores propagandistas brasileiros de quem a impôs.

Talvez admitir o fracasso dessa aposta ideológica seja mais difícil do que contabilizar o prejuízo. A empresa perde encomendas, o trabalhador teme a demissão e o município vê a arrecadação ameaçada, mas a fidelidade política continua intacta. Trump nunca prometeu colocar o Paraná em segundo lugar; prometeu colocar os Estados Unidos em primeiro. O espantoso não é que tenha cumprido. É que uma parte da direita e do empresariado paranaense ainda prefira culpar qualquer outro personagem a reconhecer que, nessa relação, sempre foi admiradora, jamais prioridade.

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Cristina Esteche

Jornalista

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