22/08/2023
Blog da Cris Guarapuava Política

A cada dia, Moro perde o discurso de campanha

Com aliados sob desgaste e ainda gravando vídeo com vice-prefeito preso por furto de moto

Senador Sergio Moro (Foto: Lula Marques/Carta Capital)

Cada novo fato envolvendo a família Bolsonaro amplia a contradição de Sergio Moro. O senador construiu a carreira pública prometendo que a lei, a ética e o combate à corrupção estariam acima de partidos e alianças. Mas, ao se aproximar do PL e do bolsonarismo, passou a conviver com episódios que cobram dele justamente aquilo que sempre exigiu dos adversários. Ou seja: rigor, coerência e indignação pública.

A condenação de Eduardo Bolsonaro é o caso mais grave e factual desse desgaste. O ex-deputado encontra-se condenado pelo STF a quatro anos e dois meses de prisão. Além disso, em tese, ainda tem oito anos de inelegibilidade por coação no curso do processo. Porém, ainda com possibilidade de recurso. Para um político comum, já seria um episódio pesado. Para Moro, que fez da autoridade da lei o principal capital eleitoral, é um teste direto de credibilidade.

O problema não é reconhecer o direito de defesa de Eduardo. Isso é básico em qualquer democracia. O problema é a assimetria do discurso. Quando o alvo é o PT, Moro fala em destruição da moral, da ética e das instituições. Quando o desgaste atinge o núcleo bolsonarista, a voz do ex-juiz perde contundência e parece presa ao cálculo da aliança.

Essa incoerência já havia ficado evidente quando Moro levou Flávio Bolsonaro a Curitiba para o lançamento da pré-candidatura ao governo do Paraná, em meio ao escândalo envolvendo Daniel Vorcaro e o Banco Master. Flávio não chegou ao evento como aliado qualquer, mas como um nome sob desgaste após a revelação de conversas com o banqueiro. Ainda assim, foi tratado como ativo político, não como constrangimento ético.

GRAVOU VÍDEO COM VICE-PREFEITO PRESO POR FURTO DE MOTO

Em Curitiba, a cena se tornou ainda mais simbólica: na coletiva, não responderam às perguntas centrais da imprensa. Falaram o que quiseram, conduziram a narrativa como palanque e deixaram os jornalistas a ‘ver navios’. Para quem se apresenta como defensor da transparência, fugir do contraditório quando o assunto incomoda é mais uma evidência de que o discurso ético tem limites bem definidos.

A filiação de Aldalto Pezzotti Bernardino ao PL, celebrada por Moro em 22 de janeiro, reforça o mesmo padrão. O vice-prefeito de Doutor Camargo havia sido preso em uma blitz com uma moto com alerta de furto e sinais de adulteração, foi solto após pagar fiança e afirmou desconhecer a procedência do veículo. E mesmo assim, Moro junto com Filipe Barros, grava vídeo enaltecendo a filiação de Aldalto ao PL. No mínimo, o caso exigiria cautela de quem usa a moralidade como vitrine pública.

Moro perdeu o discurso de campanha porque a bandeira anticorrupção deixou de parecer universal. Com Eduardo condenado, Flávio prestigiado em Curitiba em meio ao caso Vorcaro, imprensa ignorada na coletiva e Aldalto celebrado como reforço partidário, o senador enfrenta mais do que desgaste político. Enfrenta a erosão da própria narrativa. Quando a ética só serve contra adversários, ela deixa de ser princípio e vira conveniência eleitoral.

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Cristina Esteche

Jornalista

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