22/08/2023
Blog da Cris Brasil Política

A rebeldia que o Brasil transformou em feriado

Entre símbolos e conveniências, o país celebra a memória de Tiradentes enquanto esvazia o sentido crítico da luta dele

Tiradentes (Foto: domínio publico)

Falar de Tiradentes hoje é encarar uma contradição que o Brasil naturalizou: transformar um símbolo de revolta em um feriado confortável. No século XVIII, o “quinto”, cerca de 20% do ouro destinado à Coroa portuguesa, ajudou a desencadear a Inconfidência Mineira. Mais do que um imposto, era a expressão de um sistema que cobrava muito e devolvia pouco, sem representação efetiva. A crítica que nasceu ali não era apenas contra tributos, mas contra a ausência de equilíbrio entre dever e retorno.

Séculos depois, o debate continua atual e dividido. De um lado, a cobrança elevada de impostos segue sendo alvo de críticas, especialmente pela complexidade e pelo peso sobre consumo e renda. De outro, permanece a defesa de que tributos são essenciais para financiar serviços públicos, reduzir desigualdades e sustentar o funcionamento do Estado. O problema talvez não esteja apenas no “quanto” se paga, mas em “como” se paga e “o que” se recebe em troca.

MEMÓRIA SUAVIZADA

Nesse cenário, Tiradentes dificilmente caberia em rótulos simples. Talvez questionasse tanto a carga tributária excessiva quanto a má gestão dos recursos públicos. Perguntaria por que o sistema pesa mais sobre quem tem menos. Mas também cobraria eficiência, transparência e responsabilidade no uso do dinheiro arrecadado. A inquietação dele não ficaria monopolizada por um lado. Seria direcionada ao desequilíbrio.

O Brasil contemporâneo parece oscilar entre discursos fortes e práticas limitadas. Critica-se o Estado inchado, mas também se exige mais serviços. Defende-se liberdade econômica, ao mesmo tempo em que se cobra proteção social. Celebrar o Dia de Tiradentes é fácil; difícil é enfrentar as contradições que ele simboliza. A memória encontra-se suavizada. Isso porque perdeu-se o conflito real e ficou uma versão que cabe em diferentes narrativas.

Talvez o maior desafio hoje não seja escolher entre menos Estado ou mais Estado. Mas construir um sistema que funcione melhor. Tiradentes representa, acima de tudo, a disposição de questionar estruturas injustas. E sejam elas de cobrança excessiva ou de distribuição ineficiente. Entre direita e esquerda, o ponto em comum permanece atual: sem equilíbrio entre arrecadação, retorno e responsabilidade, a ideia de liberdade continua incompleta. Seja ela fiscal, social ou política.

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Cristina Esteche

Jornalista

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