22/08/2023
Blog da Cris Guarapuava

Beleza natural, memória e a urgência de um novo olhar

Espaço símbolo de Guarapuava mostra potencial, mas também cobra revitalização, cuidado e valorização das iniciativas da comunidade

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Há lugares que não precisam gritar para dizer quem são. O Parque Jordão, em Guarapuava, fala pelo vento entre as árvores, pela serra que se impõe no horizonte. Também pelas trilhas que recebem caminhantes, ciclistas e motociclistas, pela linha do trem que atravessa a paisagem e pela fé silenciosa que resiste na Capela do Monge João Maria. É um patrimônio natural, esportivo, religioso e afetivo da cidade.

Mas o Parque Jordão também carrega uma contradição incômoda: tem beleza de sobra e cuidado de menos. A natureza faz a parte dela todos os dias. A comunidade também. O Instituto Vale Verde Jordão, criado há pouco, tem tomado iniciativas, levado reivindicações ao poder público e cobrado ações para valorização ambiental, social e turística da região. Entre as demandas apresentadas estão a revitalização e o ordenamento do Parque do Jordão, proteção de rios e nascentes. Além do combate ao descarte irregular de lixo, fiscalização contra som alto e vandalismo, além de regras mais claras para atividades esportivas e de lazer.

Essa mobilização mostra que o Jordão não está esquecido por quem vive, frequenta e ama o lugar. Pelo contrário: o que existe é uma comunidade tentando impedir que um dos espaços mais bonitos de Guarapuava continue sendo tratado como paisagem secundária. O Instituto também aparece em ações práticas, como a Blitz Ecológica do Vale do Jordão, com mutirão de coleta de lixo nas margens dos rios, plantio de mudas nativas e delimitação de pontos em Área de Preservação Permanente.

BOA VONTADE NÃO SUBSTITUI POLÍTICA PÚBLICA

O problema é que boa vontade não substitui política pública. Mutirão ajuda, mas não resolve sozinho. Cobrança comunitária aponta o caminho, mas não executa obra. O Parque Jordão precisa de revitalização planejada, com sinalização, segurança, manutenção, proteção ambiental. Assim como de estrutura esportiva adequada, respeito à fé popular e ordenamento das atividades que convivem no mesmo território.

Revitalizar não é apagar a essência do lugar. É justamente protegê-la; cuidar das trilhas sem transformar a mata em concreto. É valorizar a Capela do Monge João Maria sem descaracterizar a simplicidade. Permitir caminhadas, bikes, motos, esporte, turismo e contemplação, mas com regras, respeito e estrutura.

O Vale do Jordão já tem roteiro, memória e potencial turístico.  Não falta vocação. Não falta beleza e nem gente disposta a cuidar. Falta o poder público olhar para o Parque Jordão com a seriedade que ele merece. Porque quando a comunidade precisa gritar para que um patrimônio seja visto, é sinal de que a cidade já perdeu tempo demais.

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Cristina Esteche

Jornalista

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