22/08/2023
Cotidiano Em Alta Saúde

Guarapuava se mantém há mais de 14 anos sem nenhuma criança infectada pelo HIV

Primeiro no Brasil a conquistar a dupla certificação de eliminação da transmissão vertical do HIV e da sífilis, município se prepara para revalidar o selo em 2027

SAE de Guarapuava (Foto: Divulgação)

Há mais de quatorze anos que Guarapuava não registra nenhum bebê infectado pelo HIV no momento do nascimento. O município foi o primeiro no Brasil a receber a dupla certificação de eliminação da transmissão vertical do HIV e da sífilis, concedida pelo Ministério da Saúde em 2022, e se prepara para revalidar o selo em 2027.

Um dos principais responsáveis pela marca é o Serviço de Atendimento Especializado e Centro de Testagem e Aconselhamento de Guarapuava (SAE/CTA). A coordenadora do serviço, Angela Maria de Camargo, contou ao Portal RSN que, à época do processo de certificação, o SAE não era informatizado. A solução foi revisar manualmente todo o banco de dados em parceria com a epidemiologia municipal e o Sinan.

Com os dados reorganizados e revisados, Guarapuava não só conseguiu a certificação da sífilis, que estava em curso, como também a do HIV.

Município recebeu a dupla certificação em dezembro de 2022 (Foto: Secretaria de Estado da Saúde)

O PAPEL DO SAE

Desde 2012, Guarapuava vinha estruturando protocolos de cuidado com crianças expostas ao HIV durante a gestação. Em 2018, novos protocolos foram incorporados, e em 2022 a coleta da carga viral passou a ocorrer dentro da própria sala de parto.

“Antes, a coleta ocorria quando a criança tinha dois meses. Hoje, antes de sair da sala de parto, já é feita essa coleta”, relata Angela. O acompanhamento continua com 14 dias, 45 dias, um ano e, por fim, um ano e meio de vida, quando é feito o exame definitivo — o ELISA ou teste rápido — para confirmar que a criança está livre do vírus.

Equipe do SAE em ação de prevenção no Carnaval deste ano (Foto: Secom/Prefeitura de Guarapuava)

950 pessoas em tratamento

Hoje, o SAE de Guarapuava acompanha cerca de 950 pessoas em tratamento regular para o HIV. Ao longo dos anos, mais de 1.200 diagnósticos foram registrados no município, mas parte desse grupo se mudou, fez transferência ou, em alguns casos, foi a óbito.

A taxa de abandono, que chegou a envolver 188 pacientes em busca ativa, caiu para menos de 50 pessoas. “Temos uma busca ativa bem grande. Já conseguimos reverter esse quadro.” A faixa etária mais afetada pelo HIV em Guarapuava é a de 20 a 49 anos, mas há uma tendência preocupante entre os mais velhos.

“Temos uma crescente nos idosos, acima de 65 anos.” Para enfrentar esse cenário, o SAE está lançando o projeto SAE nos Bairros, com participação em grupos da terceira idade nas unidades básicas de saúde, levando testagem, insumos e orientação diretamente à comunidade.

De 900 a 1.200 testes por mês

Só no SAE, são feitos entre 900 e 1.200 testes rápidos por mês. O número não inclui as unidades básicas de saúde. Também se destacam as ações da clínica-escola da Unicentro, que por meio de projetos de extensão conseguiu testar 100% da população carcerária local, incluindo as penitenciárias femininas da Região e a PEG. Mulheres que usam tornozeleiras eletrônicas e a população em situação de rua também começam a ser incorporadas à rotina de testagem.

Quanto aos autotestes, a distribuição varia de 300 a 600 unidades por mês no SAE, podendo chegar a 6 mil em períodos de campanha. O público prioritário são jovens e adultos jovens, atendidos por meio de palestras, campanhas e distribuição nas universidades e unidades básicas.

Aleitamento Seguro

A última criança infectada pelo HIV em Guarapuava — hoje adolescente — não foi contaminada no parto, mas durante a amamentação. De acordo com Ângela, a mãe havia feito um pré-natal impecável, testado negativo na hora do parto e sido orientada a amamentar normalmente. No entanto, engravidou novamente durante a dieta, iniciou novo pré-natal e só no terceiro trimestre descobriu que havia contraído o HIV.

“Fizemos todo um cuidado durante o pré-natal, na hora do parto e no pós-parto. Mas quando analisamos como houve a contaminação, nos deu esse alerta de que precisamos cuidar da criança durante o aleitamento”.

A solução foi criar um protocolo de testagem periódica das mães durante o período de amamentação: um teste na primeira consulta puerperal (30 dias após o parto) e, a partir daí, a cada 60 dias.

O HIV leva até 30 dias para aparecer nos testes rápidos após a infecção. Trata-se da chamada janela imunológica. Testando a cada 60 dias, o serviço garante detectar uma eventual infecção ainda muito cedo, antes que a criança seja exposta por tempo prolongado.

“Se a gente fizer a cada 60 dias, no máximo essa mulher vai estar com 30 dias de contaminação. Isso é extremamente importante para o cuidado com a criança.” Esse protocolo se tornou uma lei municipal chamada Aleitamento Seguro, que começa a operar de forma plena agora. As carteirinhas do programa vão chegar às maternidades em breve. “Acho que vai ser uma coisa muito legal dar para essa criança um leite já testado, de uma mulher testada. Um leite protegido”.

Humaniza Guarapuava

Instituído em 2023, o programa Humaniza Guarapuava está em operação e atende um público que enfrenta barreiras únicas de acesso à saúde: profissionais do sexo. O programa oferece o que Angela chama de “EPI de segurança”, conjunto de proteções que vai além da camisinha.

“A camisinha não confere realmente uma proteção, porque o cliente pode tirar. Então o que nós precisamos? Dar as vacinas que são efetivas para esse grupo”. O leque inclui vacinação contra HPV, hepatite A e hepatite B, rastreamento de ISTs (clamídia, gonorreia, sífilis), testagem para HIV e hepatite, PEP (profilaxia pós-exposição) e PrEP (profilaxia pré-exposição) “Sou uma fã apaixonada pela PrEP. Ela não confere só uma medicação para o paciente, ela confere um cuidado integral.” egundo Ângela, o município reduziu o número de casos de HIV pelo terceiro ano seguido.

O programa funciona em parceria com a Unicentro, que oferece horários alternativos de atendimento, especialmente para quem trabalha à noite e não consegue tirar ficha de manhã nas unidades básicas. Há também uma frente de inserção social. Bolsas universitárias e cursos profissionalizantes em parceria com o Centro de Referência de Atendimento à Mulher (Cram) e a gestão municipal já produziram resultados concretos.

Quatro mulheres estão na universidade, uma passou em concurso público. “Hoje ela é funcionária pública, tem uma filha. A gente vê que há como ajudar as pessoas dando para elas oportunidades que talvez nunca tenham tido na vida”.

Sífilis desafia

Na sífilis, o cenário é de avanço, mas com desafios persistentes. A maior dificuldade, segundo Angela, é a adesão dos parceiros ao tratamento. “Há uma dificuldade na participação dos homens durante o pré-natal. A gente precisa que as empresas entendam que esse marido precisa acompanhar essa mulher.”

Guarapuava fez uma capacitação sobre sífilis no ano passado e tem um workshop previsto para 2026. Angela explica também um ponto técnico importante que impacta as estatísticas: nem toda criança de mãe com sífilis é um caso de sífilis congênita.

Se a mãe foi tratada em tempo oportuno antes do parto, ela pode continuar com marcador cicatricial no VDRL sem ter bactéria ativa — e o bebê, nesse caso, não está contaminado. “A gente precisa aprender a descartar nessas suspeitas. Guarapuava já vem trabalhando essa melhora.”

Em 2027, Guarapuava vai buscar a revalidação do selo de dupla certificação. Além disso, o município planeja concorrer também à certificação de eliminação da transmissão vertical da hepatite B, para a qual já acumula dados e protocolos sólidos.

SERVIÇOS DO SAE

O SAE/CTA de Guarapuava oferece testagem rápida para HIV e outras ISTs, PrEP, PEP, TARV (terapia antirretroviral), acompanhamento para tuberculose, hanseníase, clamídia e gonorreia, além de suporte psicológico e assistência social — incluindo cesta básica para pacientes em situação de vulnerabilidade. A equipe multiprofissional conta com infectologista, farmacêuticas, psicóloga, assistente social, enfermeiros e técnicos de enfermagem.

“Poderíamos pensar em nutricionista, em fisioterapia. São sonhos. Mas o SAE já tem uma equipe multiprofissional que trabalha de forma multidisciplinar, e isso facilita o acesso, o acompanhamento e a adesão ao tratamento”. Angela reforça que os avanços ocorrem quando há um esforço integrado. “É necessário ter uma equipe engajada, um trabalho em rede e uma gestão que pense em prevenção.”

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Thiago de Oliveira

Jornalista

Jornalista formado pela Universidade Estadual do Centro-Oeste. 📧 thiagodeoliveirajor@gmail.com

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