22/08/2023
Cotidiano Em Alta Guarapuava

Guarapuava vive a rota das figurinhas da Copa

Após o fim da Banca do Henrique, trocas de figurinha da Copa reinventam tradição em vários pontos de Guarapuava


Amigos se reúnem para a troca de figurinhas (Foto: RSN)

O álbum da Copa voltou a transformar mesas, calçadas, cafeterias e corredores comerciais em pequenos ‘estádios’ improvisados em Guarapuava. Mas, neste ano, o fenômeno ganhou um ingrediente especial: após o fechamento da tradicional Banca do Henrique que, por décadas foi símbolo das trocas e ponto de encontro dos colecionadores,  a cidade viu nascer uma espécie de circuito alternativo de trocas espalhado por diferentes bairros e estabelecimentos.

Figurinhas da Copa é a febre do momento (Foto: Cristina Esteche/RSN)

O fechamento da antiga banca, que poderia representar o fim de uma tradição, acabou produzindo o efeito contrário. A cultura das figurinhas descentralizou-se. Saiu de um único ponto histórico e espalhou-se pela cidade, ocupando novos espaços e formando novas comunidades.

É uma verdadeira “via-sacra das figurinhas”. Famílias inteiras percorrem a cidade em busca daquela peça rara que falta para completar o álbum. Homens, mulheres, crianças, adolescentes, pais e avós ocupam mesas improvisadas com pilhas organizadas por números, aplicativos de controle e estratégias que lembram até mercado financeiro.

Adolescentes buscam a figurinha preferida (Foto: RSN)

No meio da movimentação deste sábado (16), Dona Leoni acompanhava o neto em mais uma parada da jornada. Já havia passado por outros pontos de troca antes de chegar ali.

“Eu dediquei a tarde inteira pra levar ele nos lugares”, contou, sorrindo enquanto observava a movimentação ao redor.

“VAI SE VIRANDO POR AÍ”

Poucos minutos depois, viu chegar um pai acompanhado das filhas, claramente iniciantes naquele universo competitivo das trocas.

“Ele perguntou como funcionava. Eu disse: ‘Vai sentando e se virando por aí’”, brincou. A cena resume bem o espírito do fenômeno: há uma mistura de improviso, comunidade e obsessão organizada.

Sentados ou no chão ‘jogando bafo’ adolescentes passam o tempo (Foto RSN)

Em outra mesa, a adolescente Gabriele mostrava as figurinhas para o pai por videochamada, enquanto a mãe ajudava na negociação. O álbum, ali, deixa de ser apenas um passatempo infantil e se transforma em ritual familiar.

Muitos pais e avós chegam afirmando que estão “ali pelos filhos”. Mas basta observar alguns minutos para perceber que, frequentemente, são eles os mais envolvidos na disputa.

Pais disputam a figurinha preferida (Foto: RSN)

“Estou aqui pelo meu filho”, dizia um senhor enquanto analisava cuidadosamente uma pilha de cromos, separando com precisão quase cirúrgica aquelas que poderiam render uma boa troca.

“FIQUEI PASSADA”

Entre adolescentes munidos de aplicativos e tabelas digitais, adultos também precisaram se atualizar. O casal Ana e Lucas sentou-se em uma das mesas na semana passada e percebeu que o ambiente havia mudado desde os tempos das trocas improvisadas na infância.

Ana e Lucas agora têm aplicativo (Foto: RSN)

“Eles chegaram com tabela de controle e até aplicativo. E eu apenas com o meu sonho”, contou Ana, entre risos. “Hoje já tenho aplicativo e estou podendo.”

A frase revela uma transformação curiosa: a febre das figurinhas já não depende apenas da nostalgia. Ela absorveu a lógica da hiperconectividade, dos grupos digitais e da organização quase profissional dos colecionadores. Há quem catalogue repetidas, rastreie faltantes em tempo real e monte rotas estratégicas de troca pela cidade.

Vitória: cliente comprou R$ 1 mil (Foto: RSN)

Mas também há exageros. Segundo Vitória, caixa de uma loja que vende álbuns e pacotes, a paixão pelo colecionismo pode alcançar cifras surpreendentes.

Teve cliente que comprou mil reais em figurinha.

Álbum da Copa (Foto Marcelo Casal Jr/ Agência Brasil)

O dado ajuda a explicar por que a indústria dos álbuns da Copa continua sendo um fenômeno comercial poderoso mesmo em tempos de ‘streaming’, redes sociais e entretenimento instantâneo.

A figurinha física resiste porque oferece algo que o digital raramente consegue reproduzir: encontro humano.

As trocas espalhadas por Guarapuava revelam justamente isso. Em uma época marcada pelo isolamento das telas, pessoas desconhecidas sentam-se frente a frente para negociar, conversar, rir e disputar pequenos pedaços de papel colorido como se fossem tesouros.

No fim, talvez a maior raridade não seja a figurinha brilhante ou a lendária “capa prata”. O item mais difícil de encontrar hoje seja justamente esse: momentos coletivos genuínos em torno de algo simples.

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Cristina Esteche

Jornalista

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