22/08/2023
Cotidiano Em Alta Guarapuava

Morre Ana Maria Santos Cruz, liderança quilombola do Paiol de Telha

Professora aposentada, mulher negra e liderança de referência, Ana Maria vinculava a luta quilombola a três dimensões inseparáveis: terra, dignidade e futuro

Ana Maria Santos Cruz (Foto: arquivo/RSN)

Morreu nesta segunda (1º), em Guarapuava, a liderança quilombola Ana Maria Santos da Cruz, 76 anos, uma das vozes mais firmes da luta pelo direito à terra da comunidade Invernada Paiol de Telha – Fundão. Conforme familiares, a morte ocorreu na madrugada de hoje, após um infarto. Ela chegou a ser levada para hospital, mas não resistiu. Ana Maria morava na comunidade, que fica na Colônia Socorro, distrito de Entre Rios. O velório ocorre na Câmara Municipal de Vereadores e o sepultamento ainda não tem horário definido.

Em 2011, Ana Maria Santos da Cruz elegeu-se, por unanimidade, coordenadora da Federação das Comunidades Quilombolas do Paraná, a Fecoqui. À época, também atuava na Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas, a Conaq. Naquele encontro, resumiu uma posição que marcaria a trajetória dela: “Nós temos voz e vamos falar.”

Conforme registros, Balbina Francisca de Siqueira deixou terras a trabalhadores escravizados libertos no século XIX. Ali, famílias negras constituíram vida comunitária, cultivo, parentesco e tradição. Essa área fica em Reserva do Iguaçu, mas algumas famílias encontram-se assentadas no distrito de Entre Rios. Décadas depois, especialmente entre os anos 1960 e 1970, essas famílias foram expulsas do território em meio a conflitos fundiários.

Foi contra esse apagamento que Ana Maria lutou. O Paiol de Telha teve processo de titulação aberto no Incra em 2005. Em 2014, o território foi reconhecido oficialmente pelo Incra, com área de 2.959 hectares. No ano seguinte, houve a publicação do decreto federal de desapropriação de 1.460 hectares, etapa considerada fundamental para a regularização fundiária.

Mas a conquista veio em pedaços. Em 2019, o Paiol de Telha tornou-se a primeira comunidade quilombola parcialmente titulada no Paraná, com 228 hectares. Ana Maria comemorou, mas não tratou a vitória como ponto final. “A gente precisa de mais”, afirmou à época, lembrando que o restante das terras do Paiol e outras comunidades quilombolas do Paraná continuavam à espera de titulação.

CELEBRAR SEM SE ACOMODAR

Essa era a marca política de Ana Maria: celebrar sem se acomodar. A titulação parcial representava um avanço histórico, mas também expunha a insuficiência do Estado. Para uma comunidade com centenas de famílias, a terra titulada era símbolo e começo, não solução definitiva. Em 2021, ela voltou a defender a totalidade do território reconhecido, afirmando que a parte ainda não regularizada fazia parte de sua vida e da memória de sua família.

Professora aposentada, mulher negra e liderança de referência, Ana Maria vinculava a luta quilombola a três dimensões inseparáveis: terra, dignidade e futuro. Em um dos depoimentos ela sintetizou essa visão ao afirmar: “Sem território, estamos à mercê de promessas vãs”.

A morte de Ana Maria Santos Cruz deixa uma ausência difícil de medir. Ela parte num momento em que a luta quilombola continua atravessada pela lentidão institucional, por disputas jurídicas e pela necessidade de políticas públicas que reconheçam a terra não como favor, mas como reparação histórica.

MULHER DE CORAGEM ÍMPAR

No Paiol de Telha e na luta quilombola paranaense e nacional, o nome dela fica associado à coragem de dizer que a memória negra do Paraná não cabe em nota de rodapé. Cabe no território, na escola quilombola sonhada. Cabe na roça, na casa, na estrada, na fala pública e na insistência de quem sabe que justiça atrasada também adoece comunidades inteiras.

Ana Maria Santos Cruz morre, mas sua luta permanece como cobrança. Ao poder público, fica a pergunta que ela repetiu em vida: quanto tempo mais será necessário para que o direito quilombola deixe de ser promessa e se torne chão?

SERVIÇO

*Reportagem atualizada às 15h14 desta segunda (1) para retificar local do velório anteriormente divulgado pela Central de Triagem.

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Cristina Esteche

Jornalista

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