22/08/2023
Blog da Cris Política

O discurso desce à base, mas a biografia fica no poder

Candidato, em comício na Boca Maldita, fala em simplicidade, enquanto registros mostram décadas de poder familiar e patrimônio milionário.

Requião Filho discursa em comício na Boca Maldita (Foto: reprodução/ Youtube)

Requião Filho (PDT) dividiu o palanque com Luiz Inácio Lula da Silva neste sábado (12), em Curitiba. Ele escolheu apresentar ao público uma memória de simplicidade. Falou dos tempos em que ajudava a montar estruturas para comícios e relacionou a lembrança ao caminho que hoje o leva à disputa pelo Governo do Paraná. Em campanha, biografia também é linguagem. E a escolha aproxima a fala dele de uma narrativa de ascensão popular historicamente associada ao campo lulista.

O ponto de análise não está em questionar a lembrança pessoal do candidato, mas em colocá-la diante de uma trajetória documentada. Requião Filho não ingressou na vida pública a partir de movimentos sindicais ou de uma ruptura com estruturas tradicionais de poder. É filho único de Maristela e Roberto Requião , ex-prefeito de Curitiba, ex-senador e governador do Paraná por três mandatos.

A linguagem voltada às camadas populares, aliás, faz parte do repertório político da família há décadas. Roberto Requião recorreu reiteradamente à Carta de Puebla e ao princípio da “opção preferencial pelos pobres”. Em pronunciamento no Senado, em 2014, relacionou expressamente o programa político ao documento.

A trajetória do filho também já é longa. Requião Filho começou como deputado estadual em 2014 e renovou o mandato em 2018 e 2022. Em 2026, declarou à Justiça Eleitoral R$ 1.876.342,14 em bens, incluindo uma residência em Curitiba avaliada em R$ 1,445 milhão, veículos e aplicações financeiras.

A GRANDE FAMÍLIA

A presença ‘dos Requião’ nas instituições alcança ainda outros integrantes da família. Maurício Requião, tio do candidato, é conselheiro do Tribunal de Contas do Paraná e retornou ao cargo em 2022, por determinação do Superior Tribunal de Justiça. Isso, depois de permanecer afastado por 13 anos.

Outro tio, Eduardo Requião, comandou a Administração dos Portos de Paranaguá e Antonina. Em 2018, a Justiça determinou a devolução de aproximadamente R$ 26 milhões à administração  portuária. Isso porque o TCE-PR considerou irregulares as contas de 2004 e apontou problemas em contratos e pagamentos. Eduardo contestou as irregularidades nos recursos apresentados ao Tribunal de Contas. Entretanto, os argumentos não foram acolhidos; a defesa também sustentou, na época, que parte da cobrança poderia configurar duplicidade.

O DISCURSO

É nesse conjunto de fatos que o discurso deste sábado deve ser observado. Requião Filho tem legitimidade para defender políticas sociais, dialogar com qualquer segmento do eleitorado e resgatar lembranças pessoais. O dado jornalisticamente relevante é outro: ao colocar a simplicidade no centro da apresentação, aproxima-se de uma narrativa popular que não traduz, sozinha, a formação política dele.

Afinal, os registros mostram um candidato com três mandatos, patrimônio milionário e origem em uma família que ocupa posições relevantes no poder paranaense há décadas. A fala do palanque apresenta uma parte da história; os documentos públicos completam o retrato.

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Cristina Esteche

Jornalista

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