22/08/2023
Blog da Cris Guarapuava Política

O ‘morolismo’ de palanque não mata a fome

Sem um plano para responder à população, o discurso moral, até agora, nada diz sobre quem mais precisa de respostas concretas

Imagem: reprodução Wikcionário)

O combate à corrupção é uma pauta necessária. Nenhum país sério pode aceitar desvio de dinheiro público, favorecimento político ou uso privado do Estado. Mas o problema começa quando essa bandeira deixa de ser uma agenda de gestão, transparência e justiça social para virar apenas discurso de palanque. O combate à corrupção, sozinho, não aquece quem sente frio, não alimenta quem tem fome e não acolhe quem dorme na rua.

É nesse ponto que o discurso “morolista” precisa ser questionado. Ele costuma se apresentar como uma cruzada moral contra os “maus”. Mas raramente responde com clareza o que será feito depois da denúncia, depois da indignação e depois do voto.

A promessa é simples: combatendo a corrupção, sobrarão recursos para investir na população. Em tese, faz sentido. Mas onde estão os projetos concretos para transformar esse dinheiro em comida, moradia, assistência social, saúde básica e proteção para os vulneráveis? O Brasil ainda convive com uma realidade dura. De acordo com o IBGE, em 2024, 24,2% dos domicílios viviam algum grau de insegurança alimentar. Há fome também de tudo. Sim, porque as palavras surgem vazias. E olha que quando entrevisto alguns deles fico à espera de posições diferentes. Em vão! A lição é a mesma!

Enquanto isso, reuniões políticas embaladas por discursos “morolistas” expõem uma contradição incômoda. De um lado, coquetéis, autoridades, fotos e cumprimentos entre os privilegiados. De outro, a massa convocada a ouvir, aplaudir e depositar esperança nas urnas. A desigualdade aparece até na organização do ambiente: uns circulam; outros assistem. Uns falam; outros apenas esperam.

A CULPA É DO OUTRO

A crítica não é ao combate à corrupção, mas ao uso dela como cortina de fumaça. Quando questionados sobre contradições ácidas, o discurso está na ponta da língua. Todos da base ‘morolista”, repetem o mantra. Ou seja: culpar o principal adversário. A responsabilidade é sempre do outro. Mas governar exige mais do que apontar culpados. Exige proposta, orçamento, prioridade e coragem para enfrentar problemas que não cabem em frases de efeito. Chego a duvidar que eles saibam disso.

Combater a corrupção é indispensável. Mas só será transformador se vier acompanhado de políticas públicas reais. Se não houver plano para quem está na fila do posto, para quem perdeu a casa, para quem depende do CRAS, para quem dorme na calçada e para quem não sabe se vai comer amanhã, o discurso moral vira apenas espetáculo. E espetáculo pode até render aplausos. Mas não muda a vida de quem mais precisa do Estado. Pense nisso!

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Cristina Esteche

Jornalista

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