22/08/2023
Em Alta Guarapuava Política

Reforma na Câmara expõe núcleo de confiança da Presidência

Mudanças reposicionam aliados, reduzem a centralidade de Maria José Mandu Ribas e recolocam Daniel Dalzoto em área estratégica, mesmo com histórico judicial sensível


Câmara de Guarapuava (Foto: Ascom)

A semana se encerra com a repercussão de reportagem informativa que mostrou o troca-troca de cargos na Câmara Municipal de Guarapuava. Mas agora, a partir de abordagens feitas por várias pessoas, formadoras de opinião em Guarapuava, observa-se que a questão deixa de ser apenas quem saiu de qual função e passa a ser outra. A pergunta é: o que essa reforma administrativa revela sobre o núcleo de confiança do presidente Pedro Moraes (MDB)?

No momento em que Moraes, atual presidente da Câmara, aparece como possível nome para uma disputa a deputado federal, cada alteração interna no Legislativo passa a ter leitura que vai além da rotina administrativa.

A mudança mais simbólica, conforme os últimos acontecimentos da semana, envolve Maria José Mandu Ribas. Antes, como coordenadora de gabinete da Presidência, ela ocupava uma função de alta proximidade com a rotina política e administrativa do comando da Casa. Era uma posição de acesso direto à agenda, às articulações e ao funcionamento interno da Presidência.

Pedro e Maria José, então a mulher forte no gabinete da Presidência (Foto: DirCom/Câmara)

Agora, deslocada para uma função mais institucional e comunitária, Maria José segue próxima da estrutura. No entanto, em um espaço menos central no processo decisório. Pedro Moraes, porém, não rompe com ela. E dificilmente faria sentido político romper com alguém que carrega histórico eleitoral, mandatos e votos. Ainda assim, a movimentação indica uma redução de influência direta no ‘coração’ da Presidência.

MARIA JOSÉ x DANIEL DALZOTO x KENNY DO CARTÓRIO

Enquanto Maria José perde centralidade, o advogado Daniel Dalzoto dos Santos volta a ocupar posição estratégica na engrenagem interna. Ele já atuou como assessor jurídico ligado à Presidência, passou pela Assessoria de Comissões Parlamentares, área sensível, conectada ao funcionamento das comissões, inclusive em temas de ética e decoro. Agora aparece reposicionado na Direção Legislativa.

Decreto de nomeação de Dalzoto (Print do Diário Oficial do Município)

Não se trata de um nome lateral. Daniel é visto nos bastidores como pessoa de extrema confiança de Pedro Moraes e como um dos conselheiros próximos do presidente. O ponto sensível, no entanto, está no histórico judicial. Daniel aparece ligado a processo de improbidade administrativa envolvendo licitações no município de Inácio Martins. Reportagem da RSN e da Folha de Irati registram que ele, junto com o ex-prefeito Maurino/Marino Kutianski e Manoel Francisco Rodrigues Moraes, respondia por acusações relacionadas a superfaturamento de obras e pagamento por serviços inexistentes, com pedido de ressarcimento aos cofres públicos e possibilidade de sanções, ainda com recurso cabível à época.

Daniel Dalzoto, diretor legislativo (Foto: divulgação)

Em 2025, o caso voltou ao noticiário após decisão do Tribunal de Justiça do Paraná envolvendo a condenação do ex-prefeito por atos de improbidade administrativa em licitações. De acordo com o jornal ‘Hoje Centro Sul’, e Folha de Irati, o TJPR confirmou condenação relacionada a dano ao erário, dolo e sanções como ressarcimento, multa civil e proibição de contratar com o poder público. A ação cobrou ressarcimento de *R$ 914.835,05, corrigidos; a sentença impôs ressarcimento integral dos danos, multa civil, perda da função pública. Além da suspensão dos direitos políticos por cinco anos e proibição de contratar com o Poder Público.

O retorno de Ramon Barbosa e Silva à Câmara de Guarapuava, completa o desenho político-administrativo. Ramon já atuou como Procurador-Geral do Legislativo na gestão de Pedro Moraes e agora volta como assessor jurídico do presidente. Além disso, conforme as informações reunidas pela reportagem, ele também figura como advogado de Daniel no processo de improbidade.

DESCONFORTO

A ligação de Daniel com Kenny do Cartório amplia o desconforto político. Daniel já teria atuado como advogado de Kenny, inclusive acompanhando depoimento na delegacia após a prisão. Informações apuradas pela reportagem indicam ainda que a fiança de R$ 21 mil teria sido paga pelo escritório jurídico do qual Daniel é sócio.

Kenny e os advogados Miguel Nicolau Junior e Daniel Dalzoto durante interrogatório na Polícia Civil (Foto: reprodução da PC)

É neste ponto que a reforma administrativa deixa de ser apenas uma troca de cadeiras e passa a exigir explicações públicas. Daniel passou por áreas estratégicas da Câmara, incluindo a Assessoria de Comissões Parlamentares e a assessoria jurídica da Presidência. No mesmo ambiente institucional, o processo por quebra de decoro contra Kenny acabou suspenso no Comitê de Ética. O que também chama a atenção é que o escritório de advocacia onde Daniel figura como sócio, inclusive do irmão dele (Davi), passou a defender Kenny.

Não há, até aqui, comprovação pública de interferência direta. Mas a pergunta política é inevitável: qual foi o peso da presença de um ex-advogado de Kenny dentro da estrutura que orbitava decisões sensíveis da Câmara?

DISPUTA SILENCIOSA

Câmara Municipal de Guarapuava (Foto: Assessoria/Câmara Municipal de Guarapuava)

A resposta interessa não apenas aos adversários de Pedro Moraes, mas ao próprio Legislativo. Quando assessores próximos ao comando acumulam histórico judicial, relações políticas delicadas e passagem por setores estratégicos, a transparência deixa de ser opção e passa a ser obrigação.

No fim, a reforma administrativa parece menos uma simples reorganização funcional e mais um movimento para ajustar forças, preservar aliados e reduzir ruídos. Pedro Moraes mantém Maria José Mandu Ribas por perto, mas em posição menos decisiva. Ao mesmo tempo, preserva no centro do poder nomes com histórico sensível e conexões politicamente incômodas. A Câmara de Guarapuava não está apenas diante de uma mudança de cargos. Está diante de uma disputa silenciosa sobre influência, confiança e controle interno.

DECRETOS DE EXONERAÇÕES E RECONTRATAÇÕES

Confira a ‘dança de cargos’:

Decretos de exonerações e nomeações

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