Reportagem: “Rombo” de R$ 2 milhões coloca funcionários da Unicred sob suspeita

Guarapuava – Dezembro de 2009, festas de fim de ano se aproximando, e um médico da cidade faz a contabilidade particular após um ano inteiro de trabalho. A proximidade da temporada de férias e a certeza de que suas economias estavam bem guardadas na cooperativa de crédito freqüentada pelos médicos de Guarapuava, a Unicred do Iguaçu, eram animadoras para o profissional que passou o ano fechado num consultório ou atendendo pacientes em hospitais.

Na Unicred, dois funcionários, teoricamente insuspeitos, eram os guardiões de parte das economias da classe médica guarapuavana. Tão confiantes eram, que muitos investidores faziam suas operações bancárias com apenas uma ligação telefônica, deixando para pegar os documentos depois.

Em dezembro, quando o médico fazia sua conferência de extratos e requereu o saque do dinheiro, foi tomado de surpresa: não havia saldo na conta. O susto não foi apenas deste investidor. Provocada a investigar o sumiço, a diretoria da Unicred acabou descobrindo que outros correntistas tinham sido lesados, num golpe que extrapola a cifra dos R$ 2 milhões.

A Polícia Civil instaurou inquérito e chegou a dois suspeitos: uma gerente, há mais de 10 anos da cooperativa, cujo nome não foi divulgado oficialmente, e Julio Cesar da Silva Ternopolski, que teria sido contratado como funcionário por indicação da própria gerente. O nome de Julio foi confirmado pelo advogado constituído para defendê-lo, Miguel Nicolau Junior.

O caso está sendo investigado pelo Departamento de Crimes Econômicos, criado recentemente pela delegada-chefe da 14ª SDP de Guarapuava, Maritza Haisse.
O delegado-adjunto Cristiano Augusto Quintas dos Santos foi nomeado para presidir o inquérito. Cerca de 10 pessoas já foram ouvidas, das quais sete são funcionários do posto da Unicred em Guarapuava.

Com base nas primeiras testemunhas ouvidas, a Polícia pode estar prestes a destrinchar uma negociata tão escandalosa quanto primária, do ponto de vista do mundo do crime. Nada comparado a uma trama, com intrincados esquemas de falsificação ou jogos contábeis.

Na Unicred de Guarapuava, segundo a TRIBUNA/Rede Sul de Notícias apuraram, as falsificações e adulterações eram grosseiras, tamanha era a segurança que os correntistas tinham na administração do negócio. Os médicos depositavam, mas o dinheiro não ia para a conta, e sim para uma espécie de fundo de investimento, gerenciado pelos suspeitos. Muitos, confiando em anos de trabalho principalmente da gerente, deixavam para pegar comprovantes outra hora. Pois, pode ter sido essa confiança exacerbada que motivou o desaparecimento da dinheirama.

Há informações de que possíveis autores do crime falsificavam extratos, com demonstrativos adulterados eletronicamente, onde apareciam os depósitos fictícios, já que o dinheiro tinha sido desviado para outra conta. Financiamentos em nome de clientes sem o conhecimento destes também estão sendo investigados.

O delegado disse que ainda depende de laudos técnicos (contábil e fiscal) para dimensionar o envolvimento dos suspeitos. “A própria empresa lesada (Unicred) pede cautela nas apurações”, disse ele. Segundo o policial, houve a apreensão dos computadores da Unicred. Para agilizar a investigação, a policia vai nomear dois especialistas para fazer perícia nos computadores da cooperativa.

Por enquanto, não houve nenhuma apreensão de bens materiais dos possíveis envolvidos. “Não fizemos nenhuma medida de repressão porque isso é concedido pelo Judiciário após as provas serem levantadas”, afirmou o delegado. O delegado disse também que ainda nenhuma pessoa foi presa. “Ainda há falta de provas, mas há indícios de que houve desvio de dinheiro”, afirmou.

Apenas sob suspeita
Não existe nenhuma acusação formal contra os dois envolvidos. Por enquanto, eles são considerados pela Polícia como “principais suspeitos”. Os indícios que levaram até os dois, além da responsabilidade direta como funcionários da empresa, foi a desconfiança em torno do crescimento patrimonial. Carros de último tipo, viagens à longa distância em roteiros turísticos, imóveis de grande valor e até agiotagem envolvem a trama.

A suspeita é filha de uma tradicional família da cidade, onde pai, mãe e filhos trabalham há anos administrando em conjunto um pequeno recanto gastronômico freqüentado pelo high-society da cidade, incluindo políticos, magistrados e profissionais liberais, entre eles médicos. O lugar é conhecido justamente pela garantia na higiene da cozinha e a qualidade do alimento e do atendimento. Tudo o que se espera de um bom restaurante, por mais simples que seja.

O que se procura entender é como o funcionário Julio, cuja mãe rala 8 horas por dia trabalhando num posto de saúde, viu seu patrimônio pessoal multiplicar de forma surpreendente. Ele se tornou sócio de uma empresa de informática localizada no Edifício Maria Antonia. Também é baterista de uma das bandas compostas por médicos.
Julio contratou o escritório jurídico do advogado Miguel Nicolau Junior, um dos mais requisitados advogados criminalistas do interior do Paraná. Os envolvidos não foram encontrados pela reportagem da TRIBUNA, apesar de incessantes contatos. Há informações de que os dois se ausentaram da cidade.

A notícia estourou durante a semana, quando o site Rede Sul de Notícias, vinculado à TRIBUNA, revelou a história em primeira mão. O psiquiatra Líbero Mezzadri Neto,que é do Conslho de Administração da Unicred, garantiu que os correntistas que tiveram depósitos desviados já foram ressarcidos. Ele disse que se só se manifestará com maiores detalhes após a conclusão do inquérito.

Por se tratar de uma cooperativa, o que acontece nestes casos é a utilização do “fundo de reserva”, de onde o dinheiro é sacado para cobrir o rombo. O problema é que o fundo é rateado entre os cooperados a cada fim de período – isto é: o furo vai ser dividido entre todos os depositantes.

Há informações não confirmadas de que ainda não existem provas definitivas que liguem diretamente aos suspeitos. Se esta hipótese prevalecer, o inquérito teria o mesmo destino que os depósitos dos médicos: com acusados “fantasmas”. O desejo da Polícia é elucidar o caso e apontar à Justiça os reais culpados. Até lá, a única coisa que se tem de concreto, comprovadamente, é um furo de R$ 2 milhões nas contas da Unicred de Guarapuava.

Leia mais sobre o “caso Unicred”:

– Polícia investiga possível desfalque na Unicred/Guarapuava CLIQUE AQUI;

– Miguel Nicolau assume defesa de suspeito no “Caso Unicred” CLIQUE AQUI;

– Unimed não possui nenhum vínculo administrativo com a Unicred, esclarece diretoria CLIQUE AQUI.

Foto: arquivo

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