Brasileiros no exterior: detalhes da quarentena fora do país

A quarentena pegou muitos brasileiros de surpresa. Aqueles que saíram do país para estudar ou trabalhar tiveram os sonhos adiados

As ruas das cidades nos Estados Unidos ficaram vazias com o início da quarentena. Por isso, é possível perceber os impactos mesmo não morando no país (Foto: Reprodução/Getty Images)

*Reportagem com vídeo

Sair da casa dos pais e morar em outra cidade para estudar ou trabalhar nem sempre é uma tarefa fácil. Imagine em outro país. Apesar de ser o sonho de muitas pessoas, a quarentena criou uma linha tênue entre a realização desse desejo e o isolamento.

Conforme Letícia Wernek, de 22 anos, que participa de intercâmbio Au Pair na Califórnia (EUA), os dias têm sido cansativos.

A quarentena é estressante para todo mundo, tanto da casa que moro no intercâmbio, quanto fora. Você vê no rosto das pessoas a preocupação. É difícil, é um futuro incerto. A gente precisa estar com o psicológico preparado.

Há dois meses nos Estados Unidos, ela sente de perto as consequências que a Covid-19 está levando ao país. Formada em educação física, decidiu migrar para ampliar os conhecimentos.

“Decidi pela mudança após sentir que o término da faculdade trouxe diversas pressões e cobranças sociais. A vontade de morar nos Estados Unidos era antiga e essa parecia a hora certa”. Mas o contato com outra cultura foi abalado pela chegada do vírus.

Do mesmo modo que Letícia, diversos adolescentes e jovens lideram a lista daqueles que desejam sair do Brasil. De acordo com uma pesquisa do Portal Datafolha, 62% dos brasileiros entre 16 e 24 anos gostariam de morar em outro país.

Com 367 mil brasileiros, os Estados Unidos está garantindo o topo da lista há anos quando o assunto é imigração. A Califórnia é um dos estados com mais estrangeiros. De acordo com a Forbes, já foram emitidos mais de 719 mil vistos para pessoas do mundo todo.

A Califórnia é o destinos de muitos brasileiros, que seguem encantados com o Estado. Entretanto, o vírus está adiando muitos sonhos (Foto: Reprodução/EuroNews)

Por outro lado, aqueles que estão fora sentem a falta de casa durante a quarentena. O coronavírus tem adiado muitas tarefas. A saudade da família aperta e o cenário tem dado espaço para um futuro carregado de dúvidas.

O que é Au Pair?

O Au Pair é um programa criado em 1986, pelo Departamento de Estado Americano para promover o intercâmbio entre famílias americanas e jovens do mundo inteiro. Dessa maneira, os interessados se inscrevem e podem enriquecer seus conhecimentos culturais.

Entre suas responsabilidades está a tarefa de cuidar e brincar com as crianças das famílias em que vão trabalhar.

Programa criado para promover o intercâmbio entre famílias americanas e jovens do mundo inteiro (Foto: Reprodução/AuPair)

Alice Vieira de 24 anos, de Santos/SP, também participa do programa. A jovem, decidiu sair do Brasil para melhorar o inglês. Ao chegar em Maryland, encontrou um lugar tranquilo. Com isso, as viagens e passeios turísticos tornaram tudo incrível. Exceto pelo momento em que o coronavírus chegou ao Estado em que mora.

A Times Square foi apenas um dos lugares que conheceu antes da quarentena (Foto: Alice Vieira)

Entre a angústia e a saudade de casa

Na casa em que Alice trabalha vivem o pai, a mãe e duas crianças. Na de Letícia moram três crianças e os pais. Ambas residem no local em que trabalham. Portanto, sair da residência não é uma opção, já que os Estados Unidos registraram nesta quarta (1), mais de quatro mil mortos pela Covid-19.

Além disso, Alice precisa tomar um cuidado redobrado. O anfitrião é médico de emergência. Segundo a imigrante, o medo toma conta.

É muito assustador pensar que ele trabalha no hospital e pode se contaminar. Por isso, tomamos cuidado redobrado. Eles não me restringiram 100% em questão da quarentena, posso ir ao mercado, por exemplo. Algumas famílias não deixam sair de casa para nada.

Entre a angústia e a saudade de casa, Alice sente falta de sair para conhecer pontos importantes do país. Esse era um de seus objetivos (Fotos: Alice Vieira)

Consequentemente, a saudade do abraço dos familiares, é um peso carregado durante todo o intercâmbio. Conforme Letícia, passar o período de distanciamento social longe daqueles com quem sempre conviveu é complicado.

“É difícil passar isso longe e saber que você está em um país com mais condição. O Brasil pode virar um caos. O governo está confuso, uma hora quer quarentena, outra não. Dessa maneira, o meu medo e minha preocupação com a minha família são grandes”.

O isolamento no país com maior número de casos

A chegada do coronavírus à Califórnia ocorreu cedo. No início de março o governador já havia declarado estado de emergência. No dia 20, já tinham contabilizado mais de mil casos. Letícia lembra quando sua chefe a chamou para conversar. Com o semblante abalado, contou que a chegada de um novo vírus estava preocupando as pessoas.

Depois desse dia tudo desandou. O vírus foi ficando mais forte, se espalhando e tudo virando uma bola de neve. As crianças não vão mais para a escola. Tudo virou preocupação, é muito grave. Na Califórnia estamos em alerta em relação a doença.

A esperança de que a quarentena tenha fim segue crescendo em Letícia (Foto: Letícia Wernek)

Os moradores receberam um aviso no celular, na semana passada. O informe alerta para que as pessoas não saiam de suas casas, visto que apenas os serviços essenciais vão continuar funcionando.

Ainda, para aqueles que não respeitam, a polícia recebeu ordens para permanecer fazendo ronda entre as ruas e garantindo que ninguém perambule sem necessidade. Portanto, a saúde está sendo a prioridade do Estado.

Em alguns lugares dos Estados Unidos os moradores inovam nas máscaras. Eles já entenderam que a prevenção é a maior aliada (Foto: Manuela Moraes)

O medo está criando um alerta na população, que teme ficar sem produtos essenciais. As máscaras e álcool em gel, que antes eram os mais procurados já estão em falta. O papel higiênico se tornou um dos itens mais difíceis de encontrar em supermercados.

É possível perceber a dificuldade em obter mercadorias no vídeo enviado por Manuela Moraes, brasileira que mora nos Estados Unidos.

Como anda Portugal?

Com cerca de 8.200 casos, Portugal estabeleceu algumas restrições para prevenção de seus moradores. Francyanne Lickfeldt, tem 26 anos e é de Curitiba. Ela foi para o país para cursar mestrado em Gestão de Informação, com especialização em Gestão do Conhecimento e Business Intelligence.

Consequentemente, Lisboa foi a selecionada para montar moradia. Da Europa, Portugal foi um dos últimos países a ser afetado pela Covid-19 de forma mais intensa.

Como anda Portugal? A chegada do vírus deixou as ruas das cidades vazias (Foto: Reprodução/Hypeness)

No início de março, o primeiro caso foi confirmado. O aeroporto da capital Lisboa, possui voos para todo todos os países do continente. Em vista disso, o vírus se alastrou de forma rápida. Segundo Francyanne, a quarentena foi estabelecida com medidas pontuais. Assim, as pessoas só podem sair de suas casas com motivos específicos, caso contrário, vão ser abordadas pela polícia.

A empresa em que trabalha adotou a política do home office. Ideia estabelecida por diversos lugares do mundo para evitar a propagação da doença. Ela trabalha em um estabelecimento administrado por italianos. Esses, já sentiam o impacto sofrido pela Itália e já vinham tomando normas preventivas.

Francyanne decidiu mudar para Lisboa para estudar e trabalhar. Porém, a quarentena mudou o rumo de seus planos (Foto: Francyanne Lickfeldt)

Meu marido e minha família estão no brasil e não é fácil olhar essa situação de longe. Não saber o que o governo vai fazer, é muito complicado. Para me distrair converso com os amigos e a família. Mas, a Netflix também tem salvado muito.

As cidades pequenas e o novo vírus

Aveiro é uma pequena cidade na Costa Oeste de Portugal. Localizada a 258 km da capital Lisboa, possui 55 mil habitantes. A adaptação em locais como esse é mais fácil, já que a locomoção em municípios pequenos é tranquila.

É lá que mora Rafaela Valcarenghi, de 22 anos. A estudante está no processo de mobilidade estudantil internacional e viajou para se dedicar ao projeto de conclusão de curso.

Aveiro é uma cidade localizada a 258 km da capital Lisboa. A cidade é pequena, mas está se prevenindo do novo vírus (Foto: Reprodução/Euro Dicas)

Ela conta que as notícias sobre a disseminação do vírus na cidade começaram na segunda semana de março. No dia 10, do mesmo mês, o reitor da universidade decidiu suspender as aulas e eventos por 15 dias. Porém, foi perceptível a necessidade de estar em quarentena, o que cancelou o calendário presencial.

Assim, a educação passou a ser nos moldes EAD, garantindo repasse de conteúdo on-line. Os estudantes, principalmente os que chegaram de outros lugares do mundo, acabaram se chocando com a situação. As recomendações do governo são as mesmas da capital. Conforme a brasileira, as medidas estão aumentando.

Mesmo morando em uma cidade menor, Rafaela sente os impactos do isolamento (Foto: Rafaela Valcarenghi)

Rafaela segue os últimos dias tentando manter a cabeça ocupada com estudo, yoga, meditação, culinária e boas horas de sono. A experiência tem sido aproveitada, mesmo que de casa. Para ela, esse é um momento de redescoberta, diferente de tudo que conhecemos.

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