A difícil decisão de transformar o corpo para ser mulher

Não foi nada fácil para que Luiz Carlos Machado entendesse que, na verdade, ele era Laysa Carolina. O menino simples nasceu e viveu sua infância no meio de uma família modesta, na Vila Nova Esperança, região pobre da Colônia Vitória, no distrito de Entre Rios, Guarapuava. Lá, ele encarou a própria condição biológica com um único objetivo: se realizar como pessoa e ser feliz. E conseguiu. Laysa assumiu o controle e hoje é um dos principais nomes no Brasil na luta pela visibilidade trans. Entre os feitos, ela conseguiu ser a primeira trans do Paraná a ser diretora em uma escola na região metropolitana de Curitiba.

(Foto: Henry Milléo/Reprodução)

“Sou de um lugar onde as pessoas construíam as casas onde moravam nos terrenos que havia por ali, de uma forma bem humilde. Por ser desse lugar tão simples, com pessoas tão simples, eu não conseguia aceitar a minha não identificação com meu corpo. Isso não era normal”.

A luta para que Laysa florescesse começou cedo. Durante muitos anos, enquanto ainda era conhecida por Luiz Carlos, ela adiou pensar sobre a sua condição.

“O processo de aceitação foi difícil até que aos 22 anos, depois de me apaixonar, percebi que tinha que fazer alguma coisa. O cara por quem me apaixonei também ficou confuso. Ele via uma mulher no corpo de um homem. Eu não podia mais permanecer daquela maneira. Apesar de não ter namorado esse homem, senti que precisava fazer algo por mim, algo que fizesse com que eu me enxergasse no próprio corpo”.

Já morando em Curitiba e com uma aparência feminina, Laysa Carolina decidiu mudar o seu corpo e assumir integralmente a condição de mulher.

Em 2013, Laysa foi entrevista pelo apresentador Danilo Gentili no programa Agora é Tarde, onde falou sobre a sua história (Foto: Divulgação)

“Na época, não havia a possibilidade de fazer a redesignação de sexo pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Então, meu objetivo era ir para a Tailândia, um dos lugares aonde muitos transexuais vão para fazer a cirurgia, mas ouvi sobre o Jalma Jurado, um médico de Jundiaí [SP], e decidi procurá-lo”.

Em 2004, depois de três anos de terapia, Laysa Carolina passou pelo procedimento cirúrgico e, embora não tivesse proximidade com a sua família, contou com o apoio da sua irmã. Começava então um período de tratamento doloroso, com complicações e uma nova cirurgia.

“Toda a dor do mundo tinha saído de mim e eu pensava que o prazer que sentiria seria psicológico, não corporal. Mas a sensação de pertencer ao corpo que sempre senti ter foi uma das maiores realizações da minha vida. Pude vivenciar, enfim, coisas que almejava há anos”.

Casada desde 2007, quatro anos após ter feito a redesignação, Laysa Carolina diz que é uma mulher realizada.

“Tudo ficou melhor. Hoje me sinto plena, feliz com meu corpo, sou professora, trabalho como atriz e tenho um canal no YouTube chamado Coisa da Laysa, onde falo sobre questões de gênero, sobre sociedade, educação e como é ser transexual.”

VISIBILIDADE

Em 2014, um documentário sobre a vida de Laysa ganhou destaque nacional. “A Morada Transitória”, dirigido por Jansen Hinkel, registra as atividades profissionais e pessoais da guarapuavana enquanto discorre sobre a temática da sexualidade, inclusão, preconceito social, educação e trabalho. Através da observação documental e da encenação de alguns trabalhos artísticos da protagonista, o roteiro mostra a dureza das lutas enfrentadas por essa mulher ao longo de sua vida em diversos planos, desde suas questões pessoais até os desafios profissionais. O documentário não está disponível online, mas disponibilizamos o trailer do trabalho abaixo.

Em 2016, a luta de Laysa chegou também ao projeto visual “Mulheres em Série”, dirigido por Maitê Sanchez. Esta foi a primeira obra audiovisual brasileira a discutir gênero com um elenco inclusivo e surgiu como uma provocação crítica à padronização da tradicional figura feminina. O episódio piloto você confere abaixo.

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