22/08/2023
Blog da Cris Guarapuava

Hoje quero o silêncio de palavras cansadas

Hoje eu quero falar de Páscoa como quem abre a janela cedo e deixa o sol entrar sem pedir documento, sem perguntar de que lado ele vem

Coelhinhos de lua( Imagem: reprodução /Freepik)

Neste fim de semana, resolvi dar folga às palavras cansadas. Nada de crise, disputa, embate, escândalo, polarização. Nada de palanque montado na mesa do café. Nada de transformar o almoço em tribunal e a sobremesa em campo de batalha. Hoje, não. Hoje eu quero falar de Páscoa como quem abre a janela cedo e deixa o sol entrar sem pedir documento, sem perguntar de que lado ele vem.

A verdade é que a vida anda dura demais para a gente esquecer o milagre das coisas pequenas. E talvez a Páscoa more justamente aí: no que renasce sem fazer barulho. No chocolate escondido pela casa, encontrado por mãos pequenas e olhos imensos. No cheiro do almoço que junta gente diferente em volta da mesma travessa. Na avó que repete a história de sempre e, ainda assim, parece inédita. No abraço meio sem jeito daquele parente difícil, que durante o resto do ano só sabe discutir preço, futebol e razão.

A Páscoa, no fundo, não é só sobre coelhos, ovos ou rituais. É sobre a estranha e bonita insistência da vida em brotar outra vez. Mesmo depois da sexta-feira mais pesada.

E isso, convenhamos, é profundamente revolucionário.

Num mundo que nos ensina a endurecer, a Páscoa sussurra o contrário: ainda é possível amolecer o coração. Num tempo em que todo mundo quer vencer debate, ela propõe outra ousadia, a de restaurar pontes. Num cotidiano em que somos treinados para responder rápido, acusar rápido, julgar rápido, ela oferece uma pausa. E às vezes a paz começa exatamente aí: quando ninguém precisa ter a última palavra.

Talvez o maior gesto pascal não seja o discurso bonito, nem a foto da mesa posta, nem a embalagem perfeita do ovo artesanal. Talvez seja simplesmente olhar para alguém da casa e tratá-lo com mais delicadeza do que ontem. Talvez seja perdoar uma ausência antiga. Talvez seja mandar mensagem para quem anda esquecido. Talvez seja sentar à mesa sem pressa, sem ironia, sem munição.

Porque há ressurreições que não acontecem nos templos, mas na cozinha. No corredor, na sala, no quintal. No instante exato em que alguém decide voltar a ser afeto.

A PÁSCOA PRA MIM

Páscoa, para mim, é isso: a chance de lembrar que nem tudo precisa continuar morto dentro da gente. Nem a esperança. Nem a ternura. Nem a fé nas pessoas. Nem aquele lado bom que a rotina, o cansaço e as notícias tentam enterrar todos os dias.

Então, por hoje, deixemos as guerras do mundo, os debates políticos,  do lado de fora do portão.
Que entrem apenas o cheiro do café, o riso das crianças, o tilintar dos talheres. A memória dos que já foram e a presença preciosa dos que ficaram.

E, se sobrar chocolate, melhor ainda.
Mas, se sobrar amor, já terá sido uma grande Páscoa.

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Cristina Esteche

Jornalista

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