22/08/2023
Guarapuava Luana Esteche

Servidor público com filho autista pode reduzir jornada sem perder vencimentos?

Direito vale para servidores federais, estaduais e municipais, de qualquer Poder, mas o pedido precisa ser formal, bem documentado e analisado conforme cada caso

Autismo (Imagem gerada por IA)

Cuidar não pode significar perder direitos

Para muitas famílias atípicas, o problema não é falta de vontade de trabalhar: é a dificuldade real de cumprir uma jornada integral e, ao mesmo tempo, acompanhar terapias, consultas, escola e cuidados indispensáveis. A *redução de jornada para servidor com filho autista* não é privilégio. É uma medida de inclusão, proteção à pessoa com deficiência e respeito à realidade de quem cuida.

Quem pode pedir a redução de jornada?

Servidor público federal, estadual ou municipal, de qualquer Poder, que tenha deficiência, ou que precise acompanhar filho, cônjuge ou dependente com deficiência — inclusive pessoa com diagnóstico de TEA — pode requerer horário especial ou redução de jornada. No caso do cônjuge, a proteção alcança marido ou esposa; no caso do dependente, é necessário comprovar essa condição conforme as regras do respectivo órgão público.

O órgão pode negar por falta de regra própria?

O fundamento está no art. 98, §§ 2º e 3º, da Lei 8.112/90. Para servidores federais, a aplicação é direta. Para servidores estaduais e municipais, o Supremo Tribunal Federal, no Tema 1.097, definiu que essa proteção também se aplica quando não houver lei local específica. Em termos práticos: a Administração Pública não pode negar o pedido apenas com uma resposta genérica de ausência de previsão no estatuto do órgão ou do ente federativo.

O que muda no Paraná com o TCE-PR?

No Paraná, o tema ganhou ainda mais força com o Acórdão nº 478/2025 do TCE-PR, que analisou o caso de servidor efetivo com filho diagnosticado com TEA. O Tribunal reconheceu a possibilidade de redução da jornada sem redução dos vencimentos do cargo efetivo, mesmo na ausência de lei local específica. A decisão é especialmente relevante quando pedidos são barrados por respostas padronizadas de setores de gestão de pessoas, recursos humanos ou chefias administrativas.

E as gratificações de função?

Também é preciso atenção às gratificações e funções de confiança. O TCE-PR não afirmou que toda gratificação deve ser mantida em qualquer hipótese. A manutenção de função de chefia, direção, assessoramento ou gratificação depende da compatibilidade entre a jornada reduzida e as atribuições exercidas. Corte automático, portanto, não deve ser aceito sem análise jurídica.

Negativa verbal não é resposta final

Se você é servidor público, tem filho autista, cônjuge ou dependente com deficiência, ou possui o próprio diagnóstico de TEA/PCD, não trate uma negativa administrativa como resposta final. O caminho seguro é protocolar um requerimento bem fundamentado e revisar qualquer indeferimento, corte de vencimentos ou perda de gratificação. Em muitos casos, o direito existe — o que falta é transformar a necessidade da família em um pedido juridicamente bem construído.

(*Fontes-base:* art. 98, §§ 2º e 3º, da Lei 8.112/90; Tema 1.097 do STF; Lei 12.764/2012; Lei 13.146/2015; Acórdão nº 478/2025 do TCE-PR.)

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Luana Esteche

Jornalista

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