22/08/2023
Blog da Cris Política

Quando o conflito sai dos bastidores

Decisões divergentes de André Mendonça e Flávio Dino sobre o comando da PF ampliam o desgaste interno da Corte e colocam em debate os próprios limites institucionais

STF (Foto: Arquivo/RSN)

A crise no Supremo Tribunal Federal deixou de ser apenas um problema interno da Corte. Ela passou a produzir efeitos políticos justamente quando o país entra na fase mais sensível da disputa presidencial. A sequência recente expôs fissuras difíceis de ignorar. André Mendonça determinou o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e Flávio Dino posteriormente decidiu pela reintegração.

Ao mesmo tempo, o presidente do STF, Edson Fachin, tenta administrar questionamentos que envolvem ministros, a Polícia Federal e investigações de forte repercussão. O problema não está apenas em saber quem está juridicamente certo. Está na imagem institucional produzida. Ou seja: um ministro afasta, outro reintegra, decisões se sobrepõem e o próprio Supremo passa a discutir os próprios limites em público.

Divergências fazem parte de qualquer tribunal. O desgaste começa quando elas passam a transmitir a impressão de fragmentação, disputa de poder ou ausência de uma linha institucional clara. É nesse ambiente que a crise começa a interferir na eleição presidencial. Com Lula e Flávio Bolsonaro aparecendo cada vez mais próximos nas pesquisas, o desgaste do STF adiciona um novo componente à campanha: a confiança nas instituições.

DESAFIO

Para a oposição, a crise pode reforçar o discurso de que o sistema precisa de limites e revisão. Para o governo, o desafio é defender a estabilidade institucional sem parecer defensor automático de ministros ou decisões específicas. Nenhum dos dois lados, entretanto, controla inteiramente os efeitos dessa crise.

O desgaste do Supremo pode mobilizar eleitores críticos à Corte, mas também pode gerar cansaço com a polarização. Pode fortalecer discursos de confronto, mas também aumentar a busca por estabilidade. E pode aprofundar uma sensação já presente em parte do eleitorado: a de que as instituições estão mais preocupadas com as próprias disputas do que com os problemas concretos do país.

Seria precipitado afirmar que a crise do STF explica o movimento das pesquisas. Mas é difícil negar que ela já influencia o ambiente eleitoral. O Supremo não estará na urna. Mas, se continuar no centro do conflito político, estará inevitavelmente dentro da escolha do eleitor. A questão, no fim, não é apenas quem vencerá a eleição. É saber quanta confiança ainda haverá no sistema que vai declarar o vencedor.

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Cristina Esteche

Jornalista

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