22/08/2023
Blog da Cris Brasil Política

O velho refrão volta a ecoar às vésperas da Independência

Entre o Rock in Rio, a crise no STF e as relações entre poder econômico e instituições, o Brasil chega ao 7 de Setembro diante de uma pergunta que continua sem resposta

Dinho Ouro Preto, vocalista do Capital Inicial (Foto: Anderson Bordê/AgNews)

Eu assistia às imagens do ‘Rock in Rio’ quando o velho refrão voltou com uma atualidade quase ofensiva: “Que país é este?”. Não parecia apenas uma música atravessando gerações. Parecia um comentário sobre o Brasil real. Um país que convive com desigualdade brutal, concentração de poder e instituições que ainda precisam provar que a lei vale igualmente para quem está na periferia e para quem circula nos salões de Brasília. Quando a canção foi dedicada a Daniel Vorcaro e ao Supremo Tribunal Federal, o palco encontrou a política.

A poucos dias do 7 de Setembro, a ironia se impõe. O país celebra a independência enquanto o noticiário expõe, mais uma vez, a promiscuidade possível entre poder econômico, influência política e estruturas de Estado. O problema não está apenas em nomes ou episódios isolados. Está numa velha arquitetura brasileira, em que dinheiro, prestígio e acesso continuam abrindo portas que permanecem fechadas para a maioria.

O Supremo ocupa uma posição central na defesa da Constituição e da democracia, sobretudo depois de anos em que as instituições foram colocadas sob ataque. Isso, porém, não transforma seus integrantes em figuras acima do escrutínio público. Ao contrário. Quanto maior o poder, maior deveria ser a transparência. Defender o STF contra ataques autoritários não pode significar blindá-lo de questionamentos legítimos. Democracia não combina nem com golpismo nem com privilégio.

É justamente aí que “Que País É Este?” volta a incomodar. Porque o trabalhador precisa provar renda, o pobre precisa provar necessidade, a mulher periférica precisa provar violência, o desempregado precisa provar que merece benefício e o cidadão comum responde rapidamente quando erra. Já no andar de cima, relações nebulosas costumam ganhar explicações sofisticadas, pareceres, versões e interpretações. A desigualdade brasileira não é apenas econômica. Ela também aparece na maneira como o poder é cobrado.

O VERDADEIRO DEBATE DA INDEPENDÊNCIA

Talvez esse seja o verdadeiro debate sobre independência em 2026. Um país não é plenamente independente apenas porque rompeu com Portugal há 204 anos. Ele também precisa ser independente dos interesses de banqueiros, grandes grupos econômicos, oligarquias políticas e redes privadas de influência. E as instituições precisam ser fortes o suficiente para enfrentar esses poderes, inclusive quando eles se aproximam demais de quem deveria fiscalizá-los.

No domingo haverá bandeiras, desfiles e discursos patrióticos. Mas patriotismo não deveria ser apenas vestir verde e amarelo. Deveria significar defender um país menos desigual, com instituições públicas submetidas à democracia e uma Justiça que não faça distinção entre sobrenome, patrimônio e posição social. O Rock in Rio já deixou a pergunta no ar. Que país é este? Talvez a resposta esteja justamente em decidir se continuaremos sendo uma República onde poucos têm acesso a tudo. Ou um país em que o poder, finalmente, também tenha de prestar contas.

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Cristina Esteche

Jornalista

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