22/08/2023
Blog da Cris Política

Pesquisa dá 45% a Moro, mas contratante e preço também entram na conta

Os 45% de Moro dominam a manchete, mas o contratante da pesquisa, o histórico editorial e o custo de R$ 40 mil também merecem atenção.

Sergio Moro (Foto: Geraldo Magela/Agência Senado)

Toda pesquisa tem margem de erro. Algumas também têm margem de contexto. É por essa segunda margem que precisa ser lido o novo levantamento do Instituto Paraná Pesquisas, divulgado nesta quinta (3). Sergio Moro (PL) aparece com 45% das intenções de voto para o Governo do Paraná, contra 24% de Requião Filho (PDT). A pesquisa mostra 17,5% de Sandro Alex (PSD). A vantagem é ampla e suficiente para reforçar a narrativa de uma eleição cada vez mais inclinada a favor do ex-juiz.

Moro já liderava antes, e isso precisa ser reconhecido. O que muda o tom desta rodada está menos no topo da tabela e mais no rodapé. A pesquisa traz como contratante a Sedek Serviços, Tecnologia & Informação Ltda. Uma empresa ligada ao Diário do Poder, veículo que já dedicou tratamento bastante elogioso a Moro. Chegou a chamá-lo de “herói nacional” e “herói da Lava-Jato”.

Isso não invalida a pesquisa. Mas torna o contratante politicamente relevante. Pesquisa eleitoral não é um número que simplesmente surge na praça pública. Isso porque, alguém encomenda, alguém paga e alguém transforma o resultado em manchete. Quando existe um histórico editorial favorável ao candidato que aparece disparado na frente, o mínimo que se espera é que esse contexto acompanhe os percentuais.

E O PREÇO?

O preço deixa a fotografia ainda mais curiosa. Este levantamento custou R$ 40 mil. Pesquisas anteriores do mesmo instituto, sobre a mesma eleição e contratadas pelo PL, ficaram na faixa dos R$ 135 mil. A diferença chega perto de R$ 95 mil. A amostra diminuiu, mas não em proporção semelhante. O valor pago, sim.

Pode haver explicação comercial legítima para isso. E não existe qualquer elemento, apenas com esses dados, que autorize falar em fraude ou manipulação. Mas uma redução dessa dimensão merece ser explicada. Afinal, transparência não pode valer apenas para a metodologia estampada no registro eleitoral. Também deve alcançar as condições comerciais que cercam um produto capaz de influenciar a percepção de uma campanha.

Os 45% de Moro são notícia. Mas não deveriam ser a notícia inteira. Pesquisa também cria ambiente, consolida favoritismo, pressiona adversários e ajuda a construir a ideia de que uma eleição já está decidida antes das urnas. Por isso, neste caso, vale olhar o gráfico. Mas vale ainda mais não perder de vista o rodapé.

Leia outras notícias no Portal RSN.

Cristina Esteche

Jornalista

Relacionadas

A missão da RSN é produzir informações e análises jornalísticas com credibilidade, transparência, qualidade e rapidez, seguindo princípios editoriais de independência, senso crítico, pluralismo e apartidarismo. Além disso, busca contribuir para fortalecer a democracia e conscientizar a cidadania.

RSN
Visão geral da Política de Privacidade

Este site usa cookies para que possamos oferecer a melhor experiência de usuário possível. As informações de cookies são armazenadas em seu navegador e executam funções como reconhecê-lo quando você retorna ao nosso site e ajudar nossa equipe a entender quais seções do site você considera mais interessantes e úteis.