Hoje o preso respeita a gente. No semiaberto, ele batia boca, diz agente

“Nós demos um passo pra frente. As melhorias foram extremas. É regime fechado, mas é melhor do que muitos lugares do Estado", diz agente da PEG UP

Andrea Cristiane Gomes da Silva conheceu o medo de trabalhar em um local inseguro e hoje se sente mais tranquila (Foto: Arquivo Pessoal)

Quem conheceu o medo de trabalhar em um local inseguro, consegue ficar mais tranquila até mesmo durante uma entrevista em que o assunto vai ser pesado. Andrea Cristiane Gomes da Silva é agente penitenciária há 12 anos.

Começou no Crag – antigo semiaberto. Ela estava de plantão no dia 15 de março de 2015, quando o agente Marcelo Pinheiro foi morto a tiros, por ex-presos que invadiram o semiaberto.

Foi por volta das 23h, eu estava na recepção quando ouvimos os tiros. Os agentes desceram correndo e já subiram avisando que tinham assassinado um agente. Eles invadiram cortando o alambrado.

Ela conta que eram três pessoas. O motorista ficou pra fora. Os outros dois entraram no semiaberto. Marcelo foi socorrido pelo Samu, mas não resistiu. “Eu desci e fiquei rezando para que conseguissem reanimá-lo. Ele era meu amigo”.

Conforme entrevista exclusiva ao Portal RSN, ela disse que num primeiro momento ficou firme e forte. “Trabalhei a noite toda. Saí às 7h e fui em uma manifestação na praça 9 de dezembro. Depois fui pra casa e não consegui dormir”.

SÍNDROME DO PÂNICO

Andrea conheceu de perto o que podemos chamar de medo e insegurança.

Eu tive durante insônia durante uns cinco meses. Tive síndrome do pânico, aquele medo constante sabe de alguém estar me perseguindo e ser morta.

Passados mais de quatro anos e meio da noite em que ela perdeu um amigo e um colega de trabalho, ela conta que a morte de Marcelo ainda mexe. “Tem um sentimento muito ruim ao lembrar, porque poderia ser morto o plantão inteiro. Hoje estamos em pé de novo”.

E a transformação da unidade para PEG UP trouxe mais segurança. “Temos mais segurança para trabalhar, mas você já não fica tão tranquilo mais. À noite, em revezamento a gente descansa, mas não consegue relaxar”.

(Foto: Gilson Boschiero/RSN)

Ela é o exemplo de quem sentiu na pele a iminência da morte, e precisou conviver com o fantasma da insegurança em um sistema que era o mesmo que enxugar gelo. Recebia o preso, e daqui a pouco ele estava solto.

Nós demos um passo pra frente. As melhorias foram extremas. É regime fechado, mas é melhor do que muitos lugares do Estado. Aqui eles [internos] têm vida mais próxima de lá de fora. E a própria família agradece muito quando eles vêm pra cá.

Andrea faz a relatoria do plantão com entrega e saída de internos no sistema. Na recepção ela recebe alimentos e produtos de higiene das famílias. Tudo passa pela recepção e relatoria dela.

Um trabalho minucioso que também ajuda evitar que algo proibido ou ilícito entre na penitenciária estadual de Guarapuava – Unidade de Progressão.

(Foto: Arquivo Pessoal)

De acordo com o chefe da segurança da PEG, Gilmar Jorge Budniak a vistoria de alimentos e artigos de higiene deixados pelas famílias, até o momento nada de ilícito foi encontrado.

O que mostra também que as famílias também são conscientes de que este é um sistema penitenciário diferenciado, que buscar promover a reinserção do interno na sociedade. Todo interno que tem aqui é orientado e tem uma chance pra passar aqui. Se ele perder a chance que ele teve, aqui ele não volta.

“Hoje o preso respeita a gente. No semiaberto, ele batia boca”, diz agente penitenciário da PEG UP (Foto: Gilson Boschiero/RSN)

Assim como Andrea, Marcio Antonio Navarro Bernardo é agente penitenciário e subchefe de segurança da penitenciária. Ele também está na unidade há 12 anos, desde a inauguração do Crag – antigo semiaberto.

E contou no vídeo abaixo, como era trabalhar na unidade antes de se tornar uma unidade de progressão.

De acordo com Marcio, hoje o preso não busca mais o embate com o funcionário. Ele vê no funcionário, aquele que está proporcionando a ele uma nova vida. Oferecendo uma ressocialização, um convívio em sociedade com a família.

Isso que a gente tem de diferencial. Preso aqui não grita. Ele chega pra conversar, se aconselhar.

De acordo com Antônio Gerson Correia, que já acumula 13 anos como agente penitenciário, a PEG UP é diferente. “É uma nova visão de presídio. Está sendo buscado preso com perfil para trabalhar e estudar. E isso é um diferencial.”

E ele tem referências para dizer isso. Já trabalhou na Penitenciária Industrial de Guarapuava (PIG). Em fevereiro de 2007 veio para o Crag – antigo semiaberto que funcionou na estrutura da atual PEG UP até o fim de 2018.

(Foto: Gilson Boschiero/RSN)

É uma nova visão de presídio. Está sendo buscado preso com perfil para trabalhar e estudar. E isso é um diferencial. É uma realidade que não temos confronto com preso. Antes [Crag – antigo semiaberto] o preso não era selecionado. Vinha preso de facção, bandido com muitos anos de cadeia.

Desde que a unidade passou a ser Unidade de Progressão em janeiro de 2019, 16 internos fugiram, dos quais 14 pularam o alambrado. Dois não retornaram do canteiro externo no fim da jornada de trabalho. Até a publicação desta reportagem, nove já tinham sido recapturados.

“Aqui priorizamos pela humanização. O preso só vai embora se ele quiser. E se quiser – porque a segurança é mínima – que vá. Se deu problema aqui dentro, aqui ele não fica. Vai embora da unidade”.

(Foto: Reprodução/Pixabay)

O agente que também trabalha um pouco mais seguro, reafirmou como era o convívio com os presos dentro da penitenciária antes da mudança para unidade de progressão.

Hoje o preso respeita a gente. No antigo semiaberto, ele [o preso] batia boca, tentava trazer celular, era rotina arremesso de drogas aqui dentro. O Estado precisa manter essa postura. Ou seja, quando o preso não se adequa ou comete falha grave aqui na unidade, ele precisa ser removido da unidade.

Conforme o advogado criminalista e professor de direito penal Loêdi Lisovski, quando uma pessoa opta por trabalhar no sistema prisional, antes de mais nada, deve ser preparada intensamente.

Loêdi Lisovski é advogado criminalista e professor de direito penal (Foto: Jeisy Doi)

Deve ser submetida a treinamentos constantes, tendo em vista que o trato diário será com a violência, ou a passada, a presente ou a futura. O sistema exige um preparo pessoal que deve alcançar não apenas as relações de sociabilidade com o apenado, mas principalmente o emocional, do agente e do preso. Entender-se e entender o próximo é a pedra de toque do sistema carcerário.

Em muitos casos, segundo Lisovski, se levarmos em consideração o espelhamento comportamental, o agente passa a ser a referência do apenado que, se tratado com violência, há de espelhar o comportamento.

Assim, o agente público de segurança deve ser treinado intensamente, já que qualquer semelhança comportamental, ou recaídas entre ele e o apenado, deve ser considerado como um momento de auto-interpretação, ou autoanálise por parte do agente.

“Se existe uma figura central no programa de ressocialização, a do agente é a que mais destaque possui, pois ele é o elo de ligação entre o Estado e o apenado”, conclui Lisovski.

Na 13ª reportagem da série “Liberdade Vigiada”, você vai conhecer o setor de tornozeleira eletrônica e ver com exclusividade, um preso colocando o equipamento.

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