Debate reacende a polêmica sobre a data de fundação de Guarapuava

por Cleyton Lutz

Um projeto de lei deve ser encaminhado ao legislativo municipal no início do próximo ano requisitando a alteração na data de fundação de Guarapuava. Assim, o dia 17 de junho de 1810 passaria a ser considerado como da fundação da cidade em substituição ao já tradicional 9 de dezembro de 1819. Ou seja, Guarapuava “saltaria” de 190 para 200 anos, completados já em 2010.

A possível mudança, por motivos óbvios, é polêmica. A história da cidade seria “reescrita”, indo muito além da simples definição de uma data. O aspecto principal que perpassa a discussão é o simbólico, envolvendo usos políticos e opções conceituais que “alterariam” a história do município.

Os Campos de Guarapuava foram “descobertos” 1770. O território se situava entre os rios Ivaí, Paraná e os Campos de São João (atual cidade de Porto União). Em abril de 1809, uma Carta Régia assinada por Dom João VI permitia o povoamento da região. O documento “approva o plano de povoar os Campos de Guarapuava e de civilizar os índios bárbaros [sic] que infestam aquelle território”. Pouco mais de um ano depois, uma expedição com cerca de 300 pessoas, liderada pelo tenente-coronel Diogo Pinto de Azevedo Portugal e pelo Padre Francisco das Chagas Lima, chegou ao local, marcando o início da “ocupação” da região.

Anos mais tarde, em 9 de dezembro de 1819, foi criada a Freguesia de Nossa Senhora de Belém – por isso o aniversário da cidade é comemorado nesta data – classificada pela professora de História Gracita Marcondes, autora de várias obras sobre a história do município, como “um pequeno povoado com um pároco”. A freguesia se originou da transferência da população do Forte Atalaia, localizado no atual distrito da Palmeirinha, primeiro povoamento da região, para o local onde hoje é Guarapuava. Mais tarde, em 1852, a freguesia foi elevada à categoria de vila e 19 anos mais tarde se tornou município.

Defensores da mudança

É aí que começam as polêmicas sobre a data de fundação da cidade. “Essa idéia de comemorar o aniversário em 9 dezembro nasceu com Antônio Lustosa de Oliveira em 1936. Mas quando a freguesia foi fundada já havia muita gente morando aqui e as atividades econômicas estavam se desenvolvendo. Já havia, por exemplo, mais de quatro mil cabeças de gado na região”, afirma Gracita. “Essa mudança viria a corrigir um erro, já que a data de fundação corresponde ao período do início da posse e uso da terra”, complementa.

Outra professora de história, Júlia de Santa Maria Pereira, presidente da comissão organizadora para os festejos de 200 do início da colonização, também concorda com a mudança. “Nosso aniversário é comemorado na data em que nascemos. E Guarapuava nasceu em 1810”, opina. “Com a instalação da freguesia, apenas foi transferido o povoamento de Atalaia para cá”, afirma.

Curiosamente, se hoje o prefeito Fernando Carli é um dos principais entusiastas da mudança na data de comemoração do aniversário da cidade, foi justamente o desleixo de outro chefe do executivo municipal, Aníbal Virmond, que fez com a decisão sobre as comemorações ficasse a cargo de um grupo organizado de pessoas, que nada tinham a ver com o poder público.

“Essa tradição foi instituída pelo jornalista Antonio Lustosa de Lustosa em 1936, quando ele sugeriu ao prefeito Aníbal Virmond, que a data fosse comemorada com uma ‘ruidosa alvorada’ na Praça João Pessoa [hoje Praça 9 de Dezembro] com ‘o pipocar de foguetões e vibrantes dobrados e marchas executados pela filarmônica Lira Operária’. Como o prefeito rejeitou a idéia, afirmando que não gastaria dinheiro dos cofres públicos com tais ‘novidades’, alegando ainda que seus antecessores nunca haviam comemorado a data, Lustosa providenciou uma coleta de fundos para a realização do evento. Assim, na madrugada do dia 9 de dezembro de 1936, foi comemorado pela primeira vez o ‘Dia da Cidade’, com fogos e músicas executadas pela banda local”, conta a doutora em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e professora da Unicentro, Walderez Pohl da Silva,.

Contra a mudança

Walderez é contra a mudança e entra no cerne da questão ao falar sobre a comemoração de 200 anos. “Provavelmente, nessa ocasião, todos os holofotes se voltariam ao evento e também à figura do prefeito, que poderia colher significativos dividendos políticos, com vistas às eleições que acontecerão em 2010”, destaca. Ela vai ainda mais longe.

“Esse tema, de tamanha relevância, deve ser objeto de debate no seio da população, notadamente entre professores e estudantes de História. Por que não organizar um plebiscito? Por que não envolver as escolas de todos os níveis da cidade? Nesse processo estaríamos incentivando o aprofundamento do estudo da história local e até mesmo recuperando muitos aspectos da nossa história”, opina.

“Na verdade, essa questão não foi colocada em debate ainda. Não existem informações claras, faltam elementos para uma discussão mais aprofundada”, comenta o também doutor em História pela UFF e professor da Unicentro, Carlos Eduardo Schipanski. Apesar da proximidade da comemoração dos 200 do início da “ocupação”, que serão completados em junho de 2010 – ao que tudo indica a data será comemorada, independente de o projeto ser ou não aprovado – não foram divulgadas informações claras sobre a possível mudança, tratada como um “segredo de Estado”, apesar de dizer respeito à história de uma cidade com 180 mil habitantes.

Mesmo com a falta de precisão nas informações, Schipanski é contra por um motivo simples. “Ao mudar a data, estaríamos privilegiando os portugueses e esquecendo os índios, por exemplo. Assim, os brancos se destacariam em detrimento dos nativos, pois quando a expedição chegou aqui a terra já era habitada por indígenas”. Ou seja, a mudança reforçaria a idéia errônea do início da “ocupação” em 1810, já que quando a expedição comanda por Diogo Pinto de Azevedo Portugal chegou à região, a mesma já era ocupada pelos autóctones.

No meio da discussão está o Instituto Histórico de Guarapuava (IHG). “A cidade possui várias datas significativas. Essa é mais uma delas e deve ser comemorada. Mas isso não quer dizer que ela seja a certa ou a errada para a comemoração do aniversário da cidade, já que tanto a chegada da expedição quanto o estabelecimento da freguesia são duas datas fundamentadas”, afirma Murilo Walter Teixeira, presidente do instituto.

Terceira possibilidade

Posição parecida, com a de Teixeira, tem doutora em História pela Universidade Estadual Paulista (UNESP) e professora da Unicentro, Terezinha Saldanha. “Essa discussão sobre a ocupação dos campos normalmente fica por conta dos memorialistas. Mas acho que todos devem ter seu espaço”, afirma. Ela acrescenta ainda outro elemento na discussão. “A cidade é fundada a partir da criação da vila”. Ou seja, se isso fosse levado em consideração, o aniversário do município seria em 17 de julho, já que nesse dia, em 1852, foi criada a vila. A passagem de freguesia a vila representava um avanço. A primeira era a menor unidade administrativa do período imperial – as freguesias, ou paróquias, eram subdivisões das cidades com funções administrativas unidas às religiosas.

Já a vila se caracterizava pela presença de uma assembléia legislativa própria, além de possuir leis e um sistema jurídico-policial, apresentando maior autonomia administrativa. Devido a isso, muitas vilas possuíam status de cidade. Não é a toa que muitos municípios consideram como dia de fundação a data em passaram a se constituir vila, já que a elevação proporcionava autonomia política ao lugar.

No entanto, não se trata de um padrão. Dentre as cidades tratadas pela historiografia como pertencentes ao “Paraná Tradicional”, Curitiba, Paranaguá e Palmas consideram como data de fundação a criação da vila, enquanto Ponta Grossa e Jaguariaíva privilegiaram a instalação da freguesia, assim como Guarapuava, provando que não há um consenso sobre o tema.

Agora resta esperar que caso a mudança seja de fato proposta, haja um debate sobre o assunto, evitando que a história da cidade seja “reescrita” a força.

O Auto de Fundação da Freguesia de Nossa Senhora do Belém

A escolha da data do “Dia da Cidade” fundamentou-se no Auto de Fundação da Freguesia de Nossa Senhora de Belém, redigido pelo Padre Francisco das Chagas Lima e pelo Tenente Coronel Antonio da Rocha Loures, então comandante interino da expedição. “Esse documento é bem pouco conhecido. Mas, aqueles que o conhecem louvam o espírito visionário de seus autores, que ainda na segunda década do século XIX já demonstravam a preocupação com a preservação ambiental. Sem dúvida nenhuma, é um documento de atualidade impressionante”, afirma Walderez. “Trata-se de Código de Postura da futura cidade, além de constituir um instrumento jurídico que antecipa as nossas preocupações mais atuais com o meio ambiente”, completa.

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