Eu na verdade aqui, não me sinto um preso, diz interno da PEG UP

A Série "Liberdade Vigiada" traz duas histórias de vida envolvendo jovens presos na PEG UP. E o que planejam para o futuro, fora da unidade

Eu na verdade aqui, não me sinto um preso.

(Foto: Gilson Boschiero/RSN)

Com esse depoimento de um preso da PEG UP, eu começo essa reportagem. Aliás, antes, quero compartilhar uma experiência com vocês. Se eu estivesse sido trazido para esta sala sem saber para onde viria, e sem nenhuma informação adicional, jamais poderia imaginar que pudesse me surpreender além do que esconde as páginas desses livros.

(Foto: Reprodução/Pixabay)

Uma biblioteca. Apenas uma biblioteca. Simples e pequena como muitas que vemos em escolas espalhadas pela cidade. As obras bem organizadas e catalogadas. E a gente pode se perguntar? O que esta biblioteca tem de diferente das demais que conhecemos?

(Foto: Gilson Boschiero/RSN)

Esta fica na Penitenciária Estadual de Guarapuava Unidade de Progressão. E o bibliotecário é um interno. Livre de algemas, ele é preso apenas aos livros. Na biblioteca existem 2480 obras. Literatura, romance, aventura, poemas, poesias, psicologia, matemática, geografia, autoajuda, livros de histórias.

Quantas histórias. E o nosso bibliotecário também tem uma pra nos contar. Mais que isso, o jovem de 27 anos condenado a 12 anos, 1 mês e 24 dias de prisão, já começou a reescrever a própria história.

É claro que não se pode apagar na trajetória de vida, os crimes que o trouxeram pra cá.

Peculato (subtração ou desvio por abuso de confiança, de dinheiro público ou de coisa móvel por parte de funcionário público), subtração de livro ou documento e posse irregular de arma de fogo de uso restrito (escopeta e pistola).

Mas como ele mesmo diz, é possível recomeçar. O crime foi em 2013 em Pitanga. O então estudante de direito, estava a um passo de fazer o TCC. E fez errado. Passou pela carceragem de Pitanga, ficou cinco meses na Penitenciária Industrial de Guarapuava PIG, e só no dia 2 de maio de 2019 é que ele chegou aqui.

E aqui a única fuga permitida é a que acontece quando ele abre um livro novo. Assim, a experiência por um momento o distancia desta realidade, e o transporta para novos mundos, novos países, novas histórias. Tudo isso, sem sair da penitenciária. Viajando pelas letras e palavras é preciso avançar, virando página por página.

Assim também, ele quer fazer quando sair daqui. Virar a página. E recomeçar.

De acordo com o advogado e professor de direito penal Loêdi Lisovski, a leitura não é apenas uma forma de passatempo, mas uma forma de estímulo da imaginação. Assim, a leitura cria novos horizontes a pessoas que perderam seus referenciais de entusiasmo pela vida, como ele afirma abaixo.

UMA ARMA EM CASA

Esse outro jovem de 30 anos, também quer fazer diferente a partir de agora. E esquecer o que passou.

(Foto: Gilson Boschiero/RSN)

Eu era uma pessoa da sociedade. Infelizmente tive uma arma em casa, e achava que era pra defesa da minha família.

O depoimento é de um comerciante. Um cidadão de bem, que como muitos outros, só pensava em defender a família. Mas a história de vida pessoal, não teve um final feliz. Conforme o comerciante que tinha uma oficina em Francisco Beltrão, ele estava em casa com a mulher.

Em 2012 ele ainda era casado. Entretanto, ele tinha uma arma para defesa pessoal em casa. Um revólver 38.

(Foto: Reprodução/Pixabay)

“Dei um tiro para assustar uma pessoa que pela terceira vez tentava entrar em minha casa, e acabei matando. O tiro acabou atingindo a pessoa”.

De acordo com o preso, após ser condenado ficou na cadeia de Francisco Beltrão. Mas está há seis meses na PEG UP e trabalha com serviços gerais na Cooperativa Agrária. No vídeo ele explica como o crime aconteceu.

Assim, ele conta que enquanto não estava no canteiro de trabalho externo, estudou e participou do projeto de remissão de pena pelo estudo por meio da leitura.

Entretanto quando perguntei sobre a possibilidade de ter novamente uma arma em casa, o preso foi direto.

Hoje eu sou contra. Porque isso aí ficou pra traz. Eu quero sair daqui outra pessoa.

Para Loêdi Lisovski, esse exemplo relatado pelo apenado, de manutenção da arma em casa deve ser analisado pela sociedade a partir da nova política implementada pelo presidente da república.

“Fornece-se a arma para as pessoas, mas não os mecanismos de preparação e uso no manuseio da arma. Isso é um estímulo às catástrofes do cotidiano, agora com a anuência do Estado”.

Na 15ª reportagem da série “Liberdade Vigiada”, você vai conhecer a história de um interno que já viu muita gente morrer enforcada na cadeia pública de Guarapuava.

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