Eu poderia ser um interno da Penitenciária Estadual de Guarapuava – UP

Nem sempre aparecer do outro lado de dentro do alambrado é uma escolha. Basta viver para ter a "Liberdade Vigiada". Lá dentro ou aqui fora

(Foto: Reprodução/Pixabay)

Conforme eu fui conhecendo a PEG UP e ouvindo as histórias, principalmente a de alguns presos, me dei conta de um sentimento que gostaria de compartilhar. Penso que ninguém nasce querendo cometer um crime, ser condenado, e ficar preso.

Mas estamos em constante vulnerabilidade na sociedade. Por um momento, e refletindo sobre algumas histórias, me coloquei no lugar de alguns internos. Poderia ser eu, sim. E com isso não estou dizendo que tenho perfil criminoso.

Admito apenas que sou humano. Não quero fazer nenhum julgamento de valor, de juízo, nem dizer que o desfecho está certo ou errado. Quero apenas, por um instante, compartilhar a empatia que tive.

EXEMPLO

Por exemplo: não tem como não admitir, que ao vender um bem que você comprou e pagou, você quer receber o pagamento devido. Mas e quando isso não acontece? O que você faz? Deixa quieto ou cobra seu devedor? Penso que seja natural do ser humano cobrar. Senão seria doação. E quem nunca passou por isso? Pois é. Quem nunca ficou nervoso com uma situação dessas ou mesmo parecida?

O limiar entre assumir o prejuízo ou cobrar e sair no braço é tênue e diz respeito a cada um, ao controle emocional num determinado instante de nossas vidas. E quando você cobra seu devedor e ele tenta o agredir com uma faca dizendo que não deve nada e não vai pagar? Imagino que a morte passa diante dos olhos. Mas se eu conseguir me defender, e inclusive tomar a faca do meu agressor/devedor e durante minha defesa, o machucar? Pronto. Cometi o crime de tentativa de homicídio.

Se condenado posso pegar alguns anos de prisão. De vítima passei a réu, e me tornei “culpado”. Lendo essa reflexão, você também consegue perceber que isso pode acontecer com você, e que aparentemente foge do nosso controle? É disso que falo. Em muitos casos, eu percebi que poderia ter acontecido comigo.

OUTRO EXEMPLO

Muitos podem estar lendo agora essa reportagem final sobre a série especial do Portal RSN a respeito da PEG UP, e tem um revólver em casa para defender a família em caso de um assalto, por exemplo.

Se lembra do depoimento do preso que deu um tiro para assustar quem invadia a sua casa, e acabou matando uma pessoa? Você pode até discordar, mas isso também poderia ter acontecido com você que tem uma arma em casa.

Não estou questionando o mérito de ter ou não uma arma em casa. Mas como exemplo, o fato de que quem bebe e dirige assume o risco de causar um acidente, ou atropelar e até matar uma pessoa, quem guarda uma arma para defender a família, também assume o risco de cometer um homicídio.

Ninguém quer decididamente isso. Mas pode acontecer com qualquer um que se submeta a essas questões colocadas. E não estou falando de crimes hediondos, com requintes de crueldade, de pessoas pertencentes a facções. Estou falando de pessoas comuns.

Porém, após um homicídio, você poderia ser condenado e estaria na cadeia. Se tivesse sorte, quem sabe seria transferido para a PEG UP, onde a estrutura e os profissionais estão à disposição daqueles que pretendem pagar a dívida que tem com a sociedade. E depois de cumprir a pena, seguir uma vida como todos sonhamos e queremos. Em Paz, e com dignidade.

REFLEXÃO

Mesmo aqui do lado de fora, e parecendo estar distante da realidade mostrada nessa série de reportagens sobre a Penitenciária Estadual de Guarapuava – Unidade de Progressão, te pergunto: como você está escrevendo os dias da sua existência, no livro da sua vida?

Quem julga as ações do outro com olhar marginalizador, pode inesperadamente e mesmo que ‘sem querer’, aparecer do outro lado do alambrado. Aliás, muito se fala no sistema prisional, como forma de prevenção de crime, seja pela pena, seja pela sua ameaça.

Eu poderia ser um interno da Penitenciária Estadual de Guarapuava – UP (Foto: Reprodução/Pixabay)

Assim, conforme o advogado criminalista e professor de direito penal Loêdi Lisovski, de tempos em tempos, “nós humanos nos metemos a pensar se está certa essa dinâmica preventiva, e pensando bem, creio que seja a que temos, e que sem ela seria pior. Não se vive mais sem a prisão, o que não quer dizer que seja a certa [dinâmica preventiva]”.

Assim, a questão do crime, não será resolvida pela pena, e isso já sabemos diz Lisovski.

“A questão do crime somente se resolve nas pessoas, que optem por não cometê-lo. Não há mistério. O problema está na complexidade das pessoas, e seu longo e tortuoso caminho para mudanças”.

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