Família de Dona Alvina compartilha a dor do adeus sem despedida

Mesmo sendo apenas considerada suspeita da covid-19, Dona Alvina teve sepultamento conforme protocolo para doença. Família faz apelo para conscientização

Família de Dona Alvina compartilha a dor do adeus sem despedida (Foto: Arquivo familiar)

Perder uma pessoa próxima ou da família é algo difícil de encarar. A morte – chamada também de passagem do corpo físico para o espiritual – quase sempre chega de surpresa. E nem mesmo quando ela dá sinais de aproximação – quando temos por exemplo, algum parente ou amigo doente – os familiares conseguem se recuperar logo e com facilidade dessa dor.

A despedida faz parte do ritual de aceitação, de concretização do luto. Mas além da dor de perder um ente querido, durante a pandemia do novo coronavírus, algumas famílias estão sendo impedidas de dar esse último adeus. Um processo interrompido que provoca ainda mais sofrimento. Apesar de imaginarmos a dor, só quem passou por uma situação como essa, pode dizer o que sentiu.

Assim, o protocolo de segurança sem velório e com caixão lacrado é adotado quando uma pessoa morre de covid-19. E o mesmo ocorre, quando alguém considerado suspeito de ter a doença está internado em isolamento hospitalar e também morre. Nesse caso, sem mesmo ter a confirmação da doença, a família enfrenta os mesmas normas estabelecidas pelos órgãos de saúde.

Lembrança do último Dia das Mães com a filha Estelamaris (Foto: Arquivo familiar)

DONA ALVINA

Foi o que aconteceu com Alvina de Lima Pires, de 84 anos e que morreu no dia 13 de julho, no hospital São Vicente, exatamente às 8h09, como informou ao Portal RSN, a filha Estelamaris Pires Neumann.

“A causa da morte foi choque cardiogênico, insuficiência cardíaca e em investigação para covid-19. No momento do óbito, recebemos as orientações da médica, que acompanhou a mãe durante 10 dias. Também da psicóloga do hospital dizendo que o velório seria em menor tempo devido à pandemia”.

Entretanto, o que a família não esperava era o que viria a seguir. “Quando chegamos ao Centro de Triagem, recebemos a notícia de que não poderíamos fazer velório, porque a mãe estava internada em isolamento da covid-19 e sob investigação. Assim, procedemos com o encaminhamento dos documentos junto à Central de Triagem, funerária e cartório até que tivemos o corpo liberado para o sepultamento”.

Dona Alvina no centro da foto (Foto: Arquivo familiar)

De acordo com Estelamaris, uma das quatro filhas de Dona Alvina e que também deixou 10 netos e quatro bisnetos, o corpo da mãe foi liberado e o padre Claudemir do Santuário Nossa Senhora Aparecida deu uma benção. “Ele fez a recomendação do corpo rapidamente pois o caixão estava lacrado. Depois, seguimos com o translado até o cemitério da Palmeirinha, onde houve o sepultamento às 13h”.

A nossa maior tristeza, além da passagem da mãe, foi não poder realizar o velório que ela merecia. Tivemos que dar adeus a ela em um caixão lacrado por conta da covid. Isso foi muito dolorido para toda a família, pois a Dona Alvina (como era chamada aqui no bairro) era muito conhecida e amada por todos. Uma mulher forte, gentil, honesta, trabalhadora e de um coração do tamanho do mundo. Com certeza não só a família, mas muitos conhecidos e amigos da mãe ficaram tristes de não poder vê-la pela última vez.

Durante celebração da 1ª Eucaristia (Foto: Arquivo familiar)

DEDICAÇÃO

Dona Alvina de Lima Pires era natural de Castro. E conforme a filha, dedicou a vida inteira à família, à igreja e à comunidade. Chegou em Guarapuava em 1970 e juntou-se a um grupo de pessoas para dar início aos trabalhos na Paróquia Nossa Senhora Aparecida, hoje Santuário de Nossa Senhora Aparecida.

“Iniciou trabalhando na Catequese, sendo a 1ª catequista, Legião de Maria, Ministra da Eucaristia e logo mais Grupo de Cantores. Foi exemplar em seus trabalhos e comunicativa e empática com todos”.

Dona Alvina também foi coordenadora da catequese paroquial por longos anos, mas nunca se desligou por completo. Sempre trabalhou ao lado dos párocos, sendo o primeiro deles o padre Pedro Canísio – já falecido – sempre com os cuidados do Bispo Dom Albano.

Alvina e padre Pedro Canísio (Foto: Arquivo familiar)

HOMENAGENS

A filha conta que entre os momentos guardados na memória, estão as histórias que a mãe sempre contava e que são orgulho para a família. “Enquanto catequista dos jovens e adultos, ela era sempre escolhida como madrinha de vários deles. Fazia encontros de formação de catequistas no Rio das Pedras, Rio das Mortes e no Distrito do Guará. Sempre com alegria. Minha mãe era uma mulher de muita fé e perseverança”.

Em 2007, a paróquia a indicou para receber o Prêmio de Mulher do Ano, e das mãos da vereadora Maria José Ribas, recebeu o certificado e homenagens.

Alvina e a vereadora Maria José Ribas em 2007 (Foto: Arquivo familiar)

Sendo filha dela e compartilhando, vivenciando e tendo como meu maior exemplo, hoje aos 50 anos, declaro com autoridade que esta é a mulher que eu tenho o maior orgulho, e posso dizer com todas as letras ESSA É A MINHA MÃE! Que ela tenha a misericórdia de Deus e continue a brilhar em nossos corações, portadora de carinho e conhecimento, experiência de vida e exemplo.

A filha também lembrou com carinho da mãe Alvina, que tinha talentos culinários. “Ela trabalhou por muitos anos como confeitaria, sendo conhecida por fazer os melhores bolos e salgados da Região. Era muito conhecida e procurada por seus feitios culinários”.

Alvina também era conhecida pelos bons culinários (Foto: Arquivo familiar)

UM APELO A TODOS

Por fim, a família de Dona Alvina fez um apelo para que nenhuma outra família precise passar pela dor de não poder velar um ente querido.

“Não subestimem a pandemia, não subestimem a gravidade desse momento que estamos vivendo. Saíam de casa apenas quando necessário. Ainda não temos um medicamento com eficácia comprovada, ainda não temos uma vacina. A nossa única arma contra esse vírus, no momento, é o isolamento social. É a conscientização e o cuidado com aqueles que amamos. Fiquem em casa e cuidem de quem vocês amam”.

De acordo com Estelamaris, a mãe entrou em isolamento depois que uma neta visitou a avó no sábado e no domingo. Na segunda, a neta fez o exame da covid, mas ainda não tinha o resultado. Posteriormente o resultado do exame foi negativo para a doença.

(Foto: Arquivo familiar)

“Aí quando perguntaram para ela com quem ela [neta] teve contato, ela falou que teve contato com a avó. Imediatamente a Saúde fez o exame na mãe, e ela foi colocada em isolamento por 14 dias. Passado 14 dias, o resultado foi negativo, mas ela foi internada duas vezes e nessas duas vezes ela permaneceu no isolamento lá no São Vicente, porque ela era tida como suspeita de ter a covid”.

Então conforme a filha, a mãe permaneceu no isolamento até o último dia de vida. “Após o falecimento, foi feito o exame novamente em minha mãe, para que o hospital pudesse verificar se realmente ela não tinha a covid”.

Por fim, de acordo com a filha, o resultado desse último exame feito após a morte de Dona Alvina deve ser divulgado no próximo dia 20.

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