Frio aumenta em 40% a procura por Albergue Noturno

Guarapuava – Com a chegada do frio aumenta a quantidade de moradores de rua que procuram refúgio no Albergue Noturno Frederico Ozanam, obra unida à Sociedade São Vicente de Paulo (Vicentinos) em Guarapuava. Eles são os que mais sofrem com as baixas temperaturas, que neste ano já caíram abaixo de zero e no final de semana os termômetros devem registrar temperaturas mínimas de cinco e seis graus.
De acordo com o gestor da instituição, Antonio Carlos Schwab, diariamente o albergue tem entre 25 a 30 atendimentos para hospedaria, número que se eleva em 40% nos dias de frio e chuva.
A instituição possui 60 leitos, 30 deles destinados aos homens e a outra metade às mulheres. Mas desse total, nem todos são para a hospedaria. Nesse caso, as pessoas que estão de passagem por Guarapuava e não tem onde se hospedar, chegam ao local por volta das 18 horas, pernoitam, no outro dia tomam café da manhã e deixam a instituição. Podem posar no albergue por, no máximo, três dias seguidos.
“Esse tempo é limitado porque não podemos incentivar que essa população fique nas ruas, pois seria agir de forma contrária às políticas públicas da Secretaria de Ação Social. Somos uma instituição Vicentina, totalmente independente, nosso objetivo é a promoção humana do indivíduo e não o assistencialismo, por isso limitamos o período. Se eles não têm roupas e calçados eles recebem, mas precisam seguir para outra cidade. Se eles ficam nas ruas acabam se alcoolizando, sem lugar para tomar banho, lavar suas roupas, e aqui, quando eles ficam mais dias, já tem essa oportunidade. Procuramos resgatar um pouco essa auto-estima”, fala.
Além da hospedaria, o Albergue Noturno têm outros dois eixos de atuação: casa de apoio para mulheres e famílias vítimas de violência doméstica e para pessoas com vulnerabilidade social, este último o mais procurado. “Temos pessoas que estão morando conosco há sete anos e têm atividades de manutenção da casa. Aqueles que têm condições, porque a maioria é alcoolista, são encaminhados para algumas atividades específicas, como para a produção das peças de artesanato, hoje um importante programa de geração de renda na instituição. Aqueles que estão num estado de mais controle das questões emocionais podem ser encaminhados ao mercado de trabalho através do Sine (Sistema Nacional de Empregos), e se surge alguma oportunidade eles trabalham. Temos um caso de uma pessoa que trabalha numa rede de farmácias da cidade”, conta.
Segundo Schwab, as pessoas que moram no local têm obrigações com a instituição, muitos deles cuidam da limpeza, do jardim, da horta, da reciclagem e da recepção. Karina Martins Padilha, 22 anos, é formada em Biologia e está morando no albergue há quatro meses. Seu pai faleceu há 11 anos, seus irmãos moram em Curitiba e a convivência com sua mãe, que mora me Guarapuava, nunca foi fácil. “Eu vim parar aqui por causa de problemas com minha mãe. Ela sempre em mandava embora de casa e da última vez ela me colocou para fora às 9 horas da noite, e como eu tinha um terreno no Mirante da Serra, acabei acampando lá. Na época eu estava trabalhando, então comecei a construir uma casinha para mim e ela simplesmente mandou derrubar. Só que o terreno é meu, está no meu nome e até agora a gente briga porque eu quero vender e ela não deixa. O caso está na justiça. Depois disso eu fui na casa da minha madrinha e ela chegou a ameaçar minha madrinha porque ela estava me acolhendo, então acabei indo para a rua, não tinha o que fazer, não tinha para onde ir. Pedi uma vaga no albergue e acabei conseguindo”, revela.
Karina cursava Pedagogia e acabou largando o curso porque pretende estudar Psicologia. Mas o conhecimento na área de educação ajudou a jovem a desenvolver um projeto no albergue. “Faço projeto de reforço escolar com as crianças das famílias cadastradas na entidade e que recebem alimentos aqui”, descreve. As crianças frequentam o albergue duas vezes por semana no contra-turno escolar. O objetivo deste projeto é manter uma reciprocidade com as famílias, fugindo assim do assistencialismo.
“Estou gostando muito de morar na instituição e não penso em ir embora, porque também estou contribuindo, está sendo bom para mim e estou sendo útil. Aqui é como se fosse minha família e eu me sinto em casa, é gostoso demais morar aqui”, completa.
Valdeci Dias Junior (foto), 22 anos, saiu das ruas da cidade e procurou na Casa de Apoio a chance de retomar a sua vida. Ele está na instituição desde a última terça-feira (09) e sua maior luta é conseguir vencer o tratamento contra o crack. “Optei por procurar ajuda, pois eu já estava morando na rua há alguns meses. Fui até a Assistência Social e me indicaram o albergue, onde fui aceito. Agora estou me esforçando, fazendo o tratamento, freqüentando os Narcóticos Anônimos e tomando medicamentos para tirar a fissura, não é fácil. Já tentei vários internamentos antes e não consegui, mas agora estou me esforçando”, diz.
Junior usou crack durante um ano e, antes disso, fumava maconha. “Não aconselho ninguém a usar crack e drogas, porque é uma tragédia e tem pouca volta, por isso estou me esforçando, pois não agüento mais. Estou começando do zero, como um bebê que está aprendendo a engatinhar, mas quero enfrentar tudo isso e me sentir pronto para voltar para o convívio social, lutar por uma oportunidade de emprego e estudar. Meu sonho é ser psicólogo e trabalhar na área de alcoolismo e drogas”, desabafa.

Doando roupas, salvando vidas
Depois de um período crítico com a falta de ajuda do poder público – foram seis meses com o auxílio suspenso – o Albergue Noturno começa a recuperar o fôlego. A instituição tem uma despesa mensal de R$ 10 mil, e 60% desse valor é obtido com recursos levantados através dos projetos próprios. O dinheiro é conseguido com a reciclagem, venda de produtos artesanais em madeira, entalhados por internos da casa, e os bazares de roupas, calçados, utensílios domésticos e móveis, que conseguem garantir uma renda mensal entre R$ 2.500 a R$ 3.000.
“Graças a Deus conseguimos reverter, pois foram seis meses traumáticos para nós. Agora está menos problemático, mas ainda precisamos de ajuda, pois ainda não conseguimos retomar a pintura interna da casa. Pintamos apenas 40% da casa e ainda precisamos fazer isso”, observa Schwab.
De acordo com o gestor, a sociedade está contribuindo bastante, fazendo a sua parte com doações de roupas e produtos. “Mas essas doações precisam ser constantes e recebemos qualquer tipo de doação, seja o alimento, o material de higiene pessoal para os internos, material de limpeza para manter a higiene da casa ou mesmo aquele material que da suporte aos bazares, que é que realmente sustenta a instituição. Roupas, calçados, móveis, utensílios domésticos, colchões, e quero ressaltar que não precisam estar em perfeitas condições, nós consertamos e comercializamos com valor simbólico, já que a nossa clientela faz parte de um público carente. Agora, com a chegada do inverno, pedimos também roupas quentes como gorros, luvas e meias”.
Os bazares não existem apenas por uma questão de sobrevivência da instituição, mas também para ajudar a população que não tem condição de comprar no comércio tradicional. A maioria das peças é vendida a um preço simbólico de R$ 0,50.
Todas as terças-feiras duas voluntárias vão até o albergue para fazer a triagem das roupas recebidas. “Separamos todas as doações, as que estão em melhores condições são vendidas a R$ 2 e R$ 3 e o restante a R$ 0,50. Já as que não podem ser comercializadas separamos para a confecção de estopas”, explicam Roseli Kohler e Alzemira Fátima de Oliveira.

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