22/08/2023
Em Alta Guarapuava Política

Justiça determina afastamento imediato de Danilo Dominico

Justiça acolheu denúncia do MP por esquema de loteamento irregular e fraudes. Vereador Danilo Dominico deve ficar afastado por 90 dias

Danilo Dominico (Foto: Arquivo/RSN)

Em decisão proferida nesta quarta (24), a juíza Paola Gonçalves Mancini de Lima, da Segunda Vara Criminal da Comarca de Guarapuava, acolheu o pedido do Ministério Público do Paraná (MPPR) e determinou o afastamento imediato de Danilo Dominico do cargo de vereador do município pelo prazo de 90 dias.

A medida cautelar foi tomada paralelamente ao recebimento formal da denúncia criminal contra o parlamentar e outros corréus, que agora passam à condição de réus em uma ação que investiga um esquema estruturado de estelionato, corrupção e crimes ambientais na área da habitação.

INVESTIGAÇÃO

A decisão judicial baseia-se em um Procedimento Investigatório Criminal (PIC) conduzido pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) de Guarapuava. De acordo com a denúncia, Danilo Dominico, valendo-se inicialmente da posição como Secretário Municipal de Habitação e, posteriormente, utilizando as prerrogativas do mandato de vereador, estruturou e liderou uma organização voltada para a exploração ilegal de terras públicas, mercantilização de políticas sociais e fraudes contra cidadãos de baixa renda.

Os réus responderão em concurso material pelos crimes de: Loteamento irregular (Art. 50 da Lei nº 6.766/79); Corrupção passiva (Art. 317 do Código Penal); Estelionato qualificado (Art. 171 c/c art. 61, II, “g”, do Código Penal); Lavagem de capitais (Art. 1º da Lei nº 9.613/98).

ESQUEMA DO LOTEAMENTO E VENDA DE TERRENOS PÚBLICOS

De acordo com o Gaeco, o grupo criminoso fez de forma clandestina, em março de 2024, obras de terraplanagem, abertura de ruas e subdivisão de um imóvel pertencente ao Município de Guarapuava, localizado na rua Mário Virmond, no Bairro Industrial. Conforme a denúncia, a gravidade da situação aumenta pelo fato de a área ser de preservação ambiental (o local era uma lagoa com nascente de água que acabou aterrada pelas obras) e nunca ter sido destinada a programas habitacionais da prefeitura, segundo confirmaram os relatórios técnicos oficiais.

Testemunhas relataram que o maquinário utilizado e a presença de servidores públicos davam uma “aparência de legalidade” ao local. Com isso, segundo a denúncia, os investigados ludibriavam as vítimas oferecendo os lotes. Em um dos casos apurados, um dos réus e outro intermediário tentaram vender dois terrenos para uma testemunha por R$ 25 mil cada, alegando falsamente que uma antiga beneficiária de programas sociais havia desistido dos lotes e que fariam um “cambalacho” interno na Secretaria de Habitação para transferir a documentação.

FRAUDE CONTRA VÍTIMAS E LAVAGEM DE DINHEIRO

Uma das vítimas chegou a pagar R$ 30 mil a um funcionário da secretaria, achando que estava adquirindo a posse legítima de um lote. Para consolidar o golpe, os envolvidos utilizaram um documento falso timbrado da prefeitura chamado “Certidão de Numeração Predial Precária”. A quebra de sigilo de dados telefônicos e bancários revelou que o dinheiro pago pela vítima foi transferido e posteriormente pulverizado para outras pessoas ligadas a esse funcionário.

Houve repasses diretos via Pix para um dos réus (funcionário) por meio dos familiares deles. Em interrogatório extrajudicial, o funcionário relatou que parte do dinheiro foi retida ou repassada em espécie a pedido do próprio Danilo Dominico para ser utilizada na campanha eleitoral. Conversas de WhatsApp apreendidas expuseram os réus admitindo o ato ilícito: “Cagada foi feita Danilo pegou o Dinheiro e vamos negar que não é pronto”.

INTERFERÊNCIA E USO DA MÁQUINA PÚBLICA

Para o Judiciário, o afastamento do cargo de vereador mostrou-se necessário não apenas para evitar a reiteração criminosa, mas também para garantir a lisura da instrução do processo. Em março de 2025, Danilo havia sido nomeado pelo prefeito para compor o Conselho Gestor do Fundo Municipal de Habitação de Interesse Social (FMHIS), o que o mantinha com influência direta exatamente sobre o setor onde os crimes foram praticados.

Além disso, segundo o Ministério Público restou comprovado que Danilo utilizou um assessor parlamentar na Câmara de Vereadores, para ir até a casa da vítima, com o intuito de pressioná-la e tentar dissuadi-la de prestar depoimento ao Ministério Público. O assessor pediu que ela omitisse qualquer informação sobre pagamentos em dinheiro.

PRÓXIMOS PASSOS

Ao receber a denúncia, a juíza Paola de Lima citou a Súmula 330 do Superior Tribunal de Justiça (STJ) para rejeitar a necessidade de uma fase preliminar de defesa, uma vez que os investigados já haviam sido amplamente ouvidos na fase de inquérito criminal. Com a abertura oficial da ação penal, os réus terão o prazo de 10 dias para responderem às acusações por escrito.

O juízo determinou a comunicação imediata da suspensão do mandato à Presidência da Câmara Municipal de Guarapuava. Cabe recurso das decisões cabíveis.

TERRA PROMETIDA

A investigação tem relação com a Operação ‘Terra Prometida’, deflagrada pelo Ministério Público do Paraná, por meio do Gaeco de Guarapuava. Essa operação apura suspeitas de associação criminosa e estelionato com abuso da função pública. Na ocasião, foram cumpridos mandados de busca e apreensão contra Danilo Dominico, dois ex-servidores da Secretaria de Habitação, a esposa de um deles e um assessor parlamentar.

O MP informou que a apuração envolve a suspeita de obtenção fraudulenta de R$ 30 mil de uma moradora, a pretexto da aquisição de um terreno. O caso também já teve desdobramentos criminais, incluindo a prisão de um casal apontado no contexto da apuração em novembro de 2025.

Leia outras notícias no Portal RSN.

Gilson Boschiero

Jornalista

Possui graduação em Jornalismo, pela Universidade Metodista de Piracicaba (1996). Mestre em Geografia pela Unicentro/PR. Tem experiência de 28 anos na área de Comunicação, com ênfase em telejornalismo e edição. Foi repórter, editor e apresentador de telejornais da TV Cultura, CNT, TV Gazeta/SP, SBT/SP, BandNews, Rede Amazônica, TV Diário, TV Vanguarda e RPC. De 2015 a 2018 foi professor colaborador do Departamento de Comunicação Social da Unicentro - Universidade do Centro-Oeste do Paraná. Em fevereiro de 2019, passou a ser o editor chefe do Portal RSN. @gilson_boschiero

Relacionadas

A missão da RSN é produzir informações e análises jornalísticas com credibilidade, transparência, qualidade e rapidez, seguindo princípios editoriais de independência, senso crítico, pluralismo e apartidarismo. Além disso, busca contribuir para fortalecer a democracia e conscientizar a cidadania.