22/08/2023
Cultura Em Alta Guarapuava

Manifesto cobra investigação sobre desaparecimento de bens históricos

Manifesto apresentado por Milton Luiz Cleve Küster cobra investigação sobre um retrato do pioneiro Luiz Daniel Cleve e de um exemplar histórico do jornal O Guayra

Milton Luiz Cleve Kuster (Foto: divulgação)

O desaparecimento de relíquias históricas do acervo público de Guarapuava acendeu um alerta. Volta-se sobre a forma como o município preserva [ou deixa desaparecer] partes fundamentais da própria memória. Um retrato do pioneiro Luiz Daniel Cleve e um exemplar da primeira edição do jornal ‘O Guayra’, impresso em seda e doado ao Museu Municipal em 1982, desapareceram. A afirmação vem de pesquisadores. A denúncia é um dos pontos centrais do ‘Manifesto pela Memória de Guarapuava’, apresentado pelo advogado e escritor guarapuavano Milton Luiz Cleve Küster.

O documento integrou a apresentação do primeiro livro do autor, “Reflexões de uma Vida em Movimento”. A solenidade ocorreu na terça (9), na sede do Instituto Histórico e Geográfico de Guarapuava (IHGG) e da Academia de Letras, Artes e Ciências de Guarapuava (Alac). Entretanto, o que poderia se tratar apenas uma noite literária ganhou tom de mobilização cívica, transformando o lançamento da obra em um chamado público pela preservação da história local.

De acordo com Küster, a ausência desses bens não pode ser tratada como simples extravio administrativo. O caso expõe uma fragilidade mais profunda: a falta de controle, proteção e valorização do patrimônio histórico local.

Quando objetos que ajudam a contar a formação cultural, política e intelectual de Guarapuava desaparecem, não se perde apenas matéria antiga. Perde-se prova, referência e identidade coletiva.

CIDADE SEM MEMÓRIA

A crítica central do manifesto é dura. Isso porque, de acordo com o documento, Guarapuava corre o risco de se tornar uma cidade sem memória. Conforme observação do autor, uma cidade que cresceu sobre uma trajetória marcada pela ocupação dos Campos de Guarapuava, pelo tropeirismo, pela erva-mate, pela madeira, pela pecuária e por uma tradição intelectual importante, mas que ainda trata a própria história como algo secundário. O documento aponta uma contradição incômoda:

A cidade se orgulha de seu passado nos discursos oficiais, mas permite que documentos, símbolos, espaços públicos e referências históricas desapareçam no cotidiano.

A Praça Cleve, conforme o manifesto, aparece como símbolo desse descuido. Dedicado a um dos pioneiros da cidade, o espaço é citado como exemplo de memória maltratada, sem a valorização compatível com a relevância histórica. Nesse ponto, o documento deixa de ser apenas denúncia e assume caráter propositivo.

De acordo com o descendentes, a família Cleve pretende doar ao município um projeto de revitalização da praça. O projeto terá a elaboração do arquiteto e urbanista João Gabriel Küster Cordeiro, tetraneto de Luiz Daniel Cleve.

INVESTIGAÇÃO OFICIAL

Entre as propostas apresentadas estão a abertura de investigação oficial sobre o desaparecimento dos bens históricos. Além do tombamento da Praça Cleve, a criação de um inventário digital do patrimônio municipal, a implantação de um Conselho Municipal de Memória, a inclusão da história de Guarapuava no currículo das escolas municipais, a criação de um Dia da Memória, a publicação de relatórios periódicos sobre a gestão do patrimônio e a construção de um Centro Integrado de Memória e Documentação.

A ideia é reunir documentos, fotografias, acervos e registros hoje dispersos, garantindo preservação, acesso e responsabilidade institucional. Mais do que um documento, o manifesto é uma cobrança moral. Küster chama historiadores, professores, estudantes, empresários, artistas, imprensa, vereadores, promotores de Justiça e a sociedade civil a assumirem a defesa da memória guarapuavana.

A frase que resume o tom do texto é direta: “A omissão não é mais uma opção aceitável.” Guarapuava não pode continuar tratando a própria história como decoração de solenidade. Sem memória preservada, uma cidade perde mais do que objetos antigos: “perde identidade, pertencimento e a capacidade de explicar às futuras gerações de onde veio”.

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Cristina Esteche

Jornalista

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