22/08/2023
Blog da Cris Guarapuava Política

Não há fórmula mágica que impeça a fúria o vento

Operação saiu das manchetes, mas ainda deixa perguntas sobre os desdobramentos e os próximos passos das investigações em Guarapuava

Vendaval sopra na cidade (Foto gerada por IA)

Há dias em que o vento apenas anuncia mudança de tempo. Em outros, atravessa janelas, desarruma certezas e lembra que nenhuma casa permanece para sempre imune ao que se vê no lado de fora.

Há uma intimidade antiga entre Guarapuava e o vento. Ele chega sem pedir licença, atravessa esquinas, dobra árvores, levanta folhas e obriga quem caminha pela cidade a apertar a japona contra o corpo. Quem vive aqui aprende cedo que não adianta discutir com ele. O vento sempre encontra uma passagem.

Às vezes, parece apenas parte da paisagem. Em outras, vem com força suficiente para mudar o cenário. O que estava cuidadosamente colocado sai do lugar. As folhas se espalham. Portas batem. Janelas estremecem. E aquilo que parecia protegido descobre, de repente, que também estava exposto.

A política não é tão diferente.

Também existem construções feitas para resistir ao tempo. Prédios sólidos, discursos bem assentados, alianças construídas tijolo por tijolo. Há quem acredite que paredes grossas sejam suficientes para impedir que o lado de fora veja o que acontece do lado de dentro.

Até que muda o vento.

FÓRMULA MÁGICA

Nas últimas semanas, ele soprou mais forte sobre um dos endereços mais simbólicos da política guarapuavana. O Ministério Público deflagrou a Operação ‘Fórmula Mágica’, que investiga um suposto esquema relacionado à regularização de uma obra embargada. O presidente da Câmara, Pedro Moraes (MDB), esteve entre os alvos de mandados de busca e apreensão. A investigação apura suspeitas; não há, por esse fato, conclusão de culpa.

Mas passado o impacto inicial da operação, a pergunta que permanece é sobre os desdobramentos. O que revelou a análise do material apreendido? Houve novas diligências? A investigação avançou? Surgiram elementos capazes de confirmar ou afastar as suspeitas apresentadas no início da apuração?

O contexto político local também inclui o vereador Danilo Dominico, hoje afastado cautelarmente do mandato em outro processo, decorrente da Operação Terra Prometida. Nesse caso, a Justiça recebeu denúncia do Ministério Público por suspeitas relacionadas ao período em que ele comandava a Secretaria Municipal de Habitação. A defesa contesta as acusações.

As situações jurídicas não são iguais, e por isso exigem cautela. Investigação não é sentença, busca e apreensão não significa culpa e toda pessoa investigada tem direito à defesa. Mas a mesma prudência que impede condenações antecipadas também exige que fatos de interesse público não desapareçam apenas porque o noticiário mudou de assunto.

Nas duas sessões semanais no próprio plenário, ouve-se falar em ética, transparência e responsabilidade. Palavras institucionais ganham outro peso quando deixam de pertencer ao discurso e passam a ser confrontadas com situações concretas. Quanto maior o cargo, maior também é a expectativa por esclarecimentos públicos.

SEMPRE SOBRA UMA FRESTA

O vento de setembro seguirá atravessando Guarapuava. Outros assuntos chegam, novas manchetes ocupam espaço e a rotina política continua. A ‘Fórmula Mágica’, porém, deixou perguntas que ainda aguardam desdobramentos. E, quando a investigação alcança o poder público, acompanhar as respostas não é insistência: é parte do trabalho de informar.

Talvez por isso seja tão interessante observar o vento. Ele não julga. Não condena. Não absolve. Apenas movimenta aquilo que parecia imóvel e obriga cada coisa a mostrar se estava realmente bem presa ao chão.

Guarapuava conhece bem a mudança repentina do tempo. O céu pode amanhecer limpo e, poucas horas depois, as nuvens tomarem conta da cidade. Na vida pública, também existem tardes assim. O que parecia estabilidade transforma-se em dúvida, e aquilo que ontem era apenas bastidor passa a exigir explicações à luz do dia.

Não cabe ao vento decidir quem estava certo. Mas ele tem uma virtude que a política, às vezes, esquece: não respeita tapetes sob os quais se tenta guardar a poeira. E quando passa pelas casas do poder, pouco importa quantas vezes as janelas tenham sido fechadas.

Sempre sobra uma fresta.

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Cristina Esteche

Jornalista

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