O dia em que Xampu quis conhecer a médica do postinho

Traficante queria agradecer, mas médica ficou com medo e nunca mais voltou ao bairro

A médica Rita Arruda (Foto: arquivo pessoal)

O bairro Industrial, ou conhecido como Xarquinho, esconde histórias orais. Muitas guardadas apenas na memória de seus protagonistas. Mas é a partir desses relatos que a Associação de Moradores e o seu departamento de cultura pretendem fazer um registro, com o apoio do Portal RSN e da Universidade Estadual do Centro-Oeste (Unicentro).

Uma das passagens pitorescas pelo Industrial Xarquinho foi contada pela médica Rita Arruda ao RSN. Era o ano de 1988, quando ela retornou a Guarapuava, depois de concluir o curso de medicina, e em seguida passou no concurso da Prefeitura.

Iniciei meus atendimentos em unidades improvisadas em locais remotos, um deles pertence hoje ao município do Candói. Era no Faxinal de Santo Antônio e outro na Boa Vista. Como eram distantes passava o dia todo nessas unidades e no retorno atendia também na comunidade de Lagoa Seca e assim encerrava a jornada.

Tempos depois, a médica recebeu a proposta para que atendesse em Guarapuava para poder cuidar do consultório particular e cumprir a carga horária mais perto.

“Foi aí que recebi a proposta de atender no final da tarde, entre às 17h e 19h, no Xarquinho. Eu tinha um fusquinha e lá me dirigia todos os dias. O postinho era bem pequeno, em construção de madeira, com três cômodos e uma sala um pouquinho maior aonde eram acolhidos os pacientes”.

Segundo a médica, a unidade de saúde ficava no meio de um terreno de chão batido e não existia cerca ou  outra proteção. “Ainda não existia asfalto ao redor”.

Trabalhavam lá, naquele horário, apenas a doutora Rita e a técnica de enfermagem. Não havia segurança alguma. Num início de noite, as duas foram surpreendidas por traficantes de drogas. O bairro era violento e conhecido por abrigar pontos de venda de drogas e gangues.

A data não lembro exatamente, porém, ocorreu em 1990. Era inverno e havia pouca iluminação ao redor. Eu estava atendendo os últimos pacientes quando a técnica de enfermagem bateu no consultório assustada. Parei o atendimento, saí do consultório e vi que estava tudo fechado. Ela havia fechado até as janelas. Escutei risadas, gritos e palmas de vários homens em frente ao postinho. Eles gritavam: Saia doutorinha, queremos te conhecer.

Assustada, a médica lembra que perguntou à técnica de enfermagem quem eram aqueles homens, pois disse que olhou pela fresta da janela e viu que eram vários e jovens.

Perguntei quem eram e ela me respondeu que faziam parte do grupo criminoso do Xampu. Assustada fiquei eu. E o que fazer? Tínhamos um telefone e a técnica ligou para a Secretaria de Saúde, mas estava sem expediente. Pedi que ligasse para a polícia e nada. Sugeri que nos trancássemos no consultório, o que pouco resolveria. Apagamos as luzes e ficamos quietas. Passaram alguns minutos e eles também ficaram quietos. Esperamos e ninguém veio nos ajudar. Pela fresta da janela vi que não havia mais ninguém. Saímos rapidamente, entramos no meu carro e eu não retornei mais. Pedi transferência quando soube detalhes do grupo. Posteriormente recebi um recado do Xampu dizendo que não iriam fazer nada de mal para mim, pois, sabiam que eu atendia a família e os amigos deles. Mesmo assim não quis retornar.

SERVIÇO

E você sabe alguma história ou fato pitoresco sobre o Industrial Xarquinho? Se sabe, basta ir até a sede da Associação de Moradores neste sábado (15), às 16h, ou entrar em contato com o Portal RSN pelo whatsapp (42) 9 9131-1688.

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