22/08/2023
Cotidiano Em Alta Guarapuava

Pesquisa alerta para risco de desaparecimento dos campos naturais de Guarapuava

Pesquisa da UFPR e da UEL identifica espécies nativas ameaçadas em remanescentes de campos e afloramentos rochosos que resistem em áreas entre Guarapuava e Candói

Araucária (Foto: IAT)

Os últimos remanescentes dos campos naturais de Guarapuava, paisagem que um dia marcou profundamente a identidade ambiental do município, estão no centro de um levantamento científico. A pesquisa é conduzida por pesquisadores da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e da Universidade Estadual de Londrina (UEL). O trabalho, conforme o professor doutor Christopher Thomas Blum, é vinculado ao projeto NAPI Biodiversidade, da Fundação Araucária. “A pesquisa busca coletar, identificar e monitorar espécies da flora nativa que ainda resistem nas poucas áreas de campos naturais e afloramentos rochosos preservadas na região.”

Mata nativa (Foto: AEN)

A pesquisa chama atenção para um contraste histórico e ambiental. Os campos naturais, formações vegetacionais de ocorrência natural no Paraná, ocupavam originalmente cerca de 4.130 km² no município de Guarapuava. Hoje, levantamentos feitos por sistema de sensoriamento remoto indicam a ausência de grandes áreas nativas contínuas na região. A redução, conforme o estudo, está associada ao intenso processo de antropismo. Também marcado pela substituição da vegetação original por monoculturas, como soja, milho e trigo, além de áreas de pastagem.

Apesar da perda expressiva, os campos de Guarapuava ainda guardam importância científica. De acordo com os pesquisadores, a diversidade florística desses ecossistemas evidencia a presença de ecótipos dominantes de gêneros como Aristida, Paspalum, Andropogon e Panicum. Estes da família Poaceae, além de Baccharis, da família Asteraceae.

Atualmente, conforme a pesquisa os remanescentes sobrevivem quase exclusivamente em locais pouco ou nada agricultáveis. Eles citam como exemplo, a áreas úmidas e afloramentos rochosos. Entre 2025 e 2026, a equipe científica fez expedições de campo com foco no monitoramento fenológico e na coleta botânica nesses afloramentos basálticos, analisando o desenvolvimento das plantas em seus habitats originais. De acordo com o trabalho, o herbário FUEL, da UEL, e do Herbário Escola de Florestas Curitiba (EFC-UFPR) apoiam a iniciativa.

ESPÉCIES DE ALTO VALOR DE CONSERVAÇÃO

Zephyranthes paranaensis (Foto: Juniper Level Botanic Gdn, NC by JLBG)

Em áreas específicas entre Guarapuava e Candói, a lista preliminar de plantas revelou espécies de alto valor de conservação, como Zephyranthes paranaensis, da família Amaryllidaceae, Mimosa hatschbachii, da família Fabaceae, além de populações de Eryngium corallinum, da família Apiaceae, espécie considerada criticamente ameaçada.

Conforme diz o doutor Christopher Thomas Blum, a pesquisa é essencial para compreender a resistência desses ecossistemas diante das transformações históricas da paisagem paranaense.

Os campos naturais no contexto do Paraná formam um patrimônio biológico e paisagístico ímpar que sofreu reduções críticas ao longo da nossa história; compreender e documentar a resiliência dessas formações é o passo inicial para garantir que essa riqueza não desapareça por completo.

A singularidade dos micro-habitats também é um dos pontos centrais do estudo. De acordo com o professor doutor José Eduardo Lahóz da Silva Ribeiro, os afloramentos rochosos basálticos abrigam formas de vida altamente especializadas.

A flora em afloramentos rochosos basálticos no Paraná apresenta adaptações morfológicas e fisiológicas singulares para sobreviver em condições severas de escassez de solo, o que resulta em agrupamentos vegetais altamente especializados.

ALERTA ECOLÓGICO

Área de desmatamento (Foto: IAT)

O alerta ecológico ganha reforço do professor doutor Juliano Cordeiro. Ele destaca a urgência da preservação dessas áreas, mesmo quando pequenas e pouco conhecidas pela população.

A preservação dos remanescentes de campos, frequentemente restritos a nichos de solos rasos, é absolutamente indispensável. O rigor no estudo da sistemática botânica e da ecologia vegetal das espécies dessas áreas nos revela que elas são verdadeiros santuários ecológicos, abrigando a ocorrência de espécies da flora que se encontram severamente ameaçadas de extinção e que desempenham um papel vital no equilíbrio ambiental local.

Pela importância histórica, hídrica e biológica dos campos naturais para Guarapuava, os pesquisadores defendem que a preservação dos remanescentes desse ecossistema tenha tratamento prioritário. Mesmo reduzidas e ainda pouco conhecidas pelo grande público, essas áreas representam parte essencial da memória ambiental da região. Portanto, podem guardar espécies decisivas para a conservação da biodiversidade paranaense.

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Cristina Esteche

Jornalista

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