22/08/2023
Blog da Cris

Quaest revela mais sobre o recorte da notícia do que sobre um vencedor

Flavio e Lula (Foto: reprodução/ redes sociais)

A pesquisa Genial/Quaest divulgada nesta quarta (11), revela mais do que um retrato eleitoral. Ela mostra como o noticiário político é, muitas vezes, uma disputa de enquadramentos. Não é preciso distorcer os dados para produzir leituras diferentes. Basta escolher qual número vai para a manchete e qual fica no meio do texto. Esse é o ponto central da cobertura desta rodada. A própria Quaest registrou empate numérico entre Lula e F. A margem de erro de dois pontos e registro no TSE sob o número BR-05809/2026.

A ESQUERDA

Nos veículos mais identificados com a esquerda, o recorte dominante tende a preservar a ideia de que Lula continua competitivo e ainda superior aos adversários fora do núcleo bolsonarista. A CartaCapital, por exemplo, destacou o empate com Flávio no segundo turno. E, em outra abordagem, o mau desempenho dos presidenciáveis do PSD, sublinhando que Ratinho Junior, Ronaldo Caiado e Eduardo Leite seguem distantes dos dois polos centrais da disputa. É um enquadramento que chama atenção para a persistência da polarização. Assim como para a dificuldade de uma terceira via se impor.

A DIREITA

Nos portais mais alinhados à direita, o foco mudou. A Revista Oeste e Jovem Pan deram ênfase à desaprovação do governo Lula, que chegou a 51. Enquanto a Gazeta do Povo e a própria análise publicada pela Quaest destacaram o avanço de Flávio Bolsonaro entre os independentes e a piora dos indicadores de rejeição do presidente. Nesse enquadramento, a notícia principal deixa de ser apenas o empate. Passa a ser o desgaste do governo e a consolidação de Flávio como principal nome da oposição.

NÚMEROS BRUTOS

Os números brutos, porém, contam uma história mais complexa do que qualquer manchete isolada. Lula empatou numericamente com Flávio no segundo turno, mas ainda vence outros adversários testados, como Ratinho Junior, por 42% a 33%, e Romeu Zema, por 44% a 34%. No primeiro turno, Lula varia de 36% a 39%, enquanto Flávio oscila entre 30% e 35%, dependendo do cenário. Ao mesmo tempo, o governo mostra sinais claros de desgaste. Conforme a pesquisa a aprovação caiu para 44%, a desaprovação subiu para 51%, a avaliação negativa foi a 43%, a positiva ficou em 31%, e 48% disseram que a economia piorou nos últimos 12 meses.

RECORTES RELEVANTES

Há ainda dois recortes particularmente relevantes. O primeiro é simbólico: 43% dizem ter mais medo da continuidade de Lula, enquanto 42% temem mais a volta da família Bolsonaro. O segundo é eleitoral: entre os independentes, Flávio aparece com 32% no segundo turno, contra 27% de Lula. Esses dados ajudam a explicar porque setores da direita celebraram a pesquisa e por que setores governistas preferiram enfatizar que Lula ainda lidera contra nomes como Ratinho e Zema. Ambos os lados encontraram material para sustentar a narrativa.

LEITURA IMPARCIAL

A leitura mais imparcial, portanto, não é a de que a pesquisa “foi boa” para um lado e “ruim” para o outro. Ela foi ambivalente. Mostra, ao mesmo tempo, que Lula segue forte o bastante para liderar contra vários adversários e fraco o suficiente para já não abrir distância sobre o principal nome do bolsonarismo. Mostra também que Flávio Bolsonaro cresceu, mas ainda carrega rejeição alta e depende do voto independente para transformar competitividade em maioria. O problema do debate público começa quando cada campo escolhe metade da pesquisa e vende essa metade como se fosse o todo.

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Cristina Esteche

Jornalista

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