22/08/2023
Blog da Cris Política

Quando os paladinos da ética enfrentam as próprias contradições

Novas denúncias envolvendo assessores e aliados colocam em xeque discursos construídos sobre moralidade e combate à corrupção.

Boneco de gelo derretendo (Foto: reprodução/ iStockPhoto)

O frio intenso que colocou Guarapuava abaixo de zero nesta quarta (24), Dia de São João, trouxe uma metáfora perfeita para o momento político. Enquanto a cidade amanhece coberta pela geada, também se espalha uma camada de gelo sobre discursos que prometiam uma política mais limpa. E que, no entanto, são questionados por fatos envolvendo pessoas escolhidas para ocupar espaços de confiança. Porém, sem respostas.

A cada novo assessor denunciado, investigado ou envolvido em suspeitas de corrupção, a velha pergunta volta ao centro do debate. Como estruturas que se apresentam como guardiãs da moralidade acabam abrigando pessoas acusadas justamente daquilo que dizem combater? Um gabinete não é apenas uma sala com cargos. É uma extensão das escolhas, dos critérios e da responsabilidade de quem governa ou representa.

O problema não está apenas na conduta individual de um assessor. Quando alguém ocupa uma função estratégica, com acesso a informações, recursos e influência, a escolha desse nome revela muito. Diz muito sobre os filtros utilizados por aqueles que defendem ética e transparência como bandeiras políticas.

Esse desgaste não é exclusividade de um grupo ou ideologia. Ele aparece em diferentes níveis da política, inclusive em cidades onde líderes construíram trajetórias com discursos de renovação. E aí surge o combate aos privilégios, a tolerância zero com desvios, rachadinhas, penduricalhos, e claro, a transparência. Entretanto, a contradição entre a fala e as pessoas colocadas ao redor acaba sendo cobrada pelo eleitor.

O GELO DERRETE

A imagem de políticos que se venderam como “imunes” aos velhos vícios da política começa a perder força quando surgem episódios envolvendo aliados próximos. A autoridade moral não se sustenta apenas em discursos duros ou frases de efeito. Ela depende da coerência entre o que se promete e o que se pratica.

Assim como o gelo da madrugada parece transformar tudo em uma paisagem uniforme, certas narrativas políticas, as quais conhecemos muito bem, também criam uma aparência de perfeição. Mas, quando o sol aparece, as rachaduras ficam visíveis. Na política, as camadas de gelo também derretem. E assim sendo, deixam expostas as escolhas que estavam escondidas sob a superfície.

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Cristina Esteche

Jornalista

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