22/08/2023
Blog da Cris Política

Moro vai à cadeia com Flávio e enterra mais um pedaço do próprio discurso

Ex-juiz que rompeu com Bolsonaro sob acusações de interferência na PF agora acompanha Flávio em visita a Filipe Martins e expõe o tamanho da guinada política.

Moro e Flavio na cadeia em Ponta Grossa (Foto: reprodução/ redes sociais e com ajustes de IA)

Há fatos que não dá para ignorar. Às vésperas do 7 de Setembro, Flávio Bolsonaro e Sergio Moro foram juntos a uma cadeia em Ponta Grossa visitar Filipe Martins. Um é candidato à Presidência. O outro construiu a imagem nacional como juiz da Lava Jato, símbolo da prisão de poderosos e do discurso de combate à corrupção. A ironia da cena praticamente dispensa legenda.

Foi justamente ali, diante de uma cadeia, que a jornalista Marielle Martins colocou a pergunta que mais incomodava aquela fotografia. Como explicar Flávio e Moro no mesmo lado depois de anos de rompimento, acusações e ataques? Flávio respondeu que Moro agora faz parte do  “time” dele e voltou a apresentá-lo como referência no combate à corrupção.

É uma resposta politicamente conveniente, mas historicamente difícil de engolir sem mastigar bastante. Moro deixou o governo Bolsonaro acusando Jair Bolsonaro de tentar interferir na Polícia Federal. Depois, fez críticas à atuação da família e ao ambiente político que cercava Flávio. Durante anos, para boa parte do bolsonarismo, Moro foi traidor. Agora, virou aliado confiável, quase certificado novamente como guardião da moralidade.

E a cadeia torna tudo ainda mais simbólico. Não há ilegalidade alguma em visitar um preso. O ponto, portanto, é outro. Moro construiu capital político justamente associando sua trajetória à prisão, à punição e ao rigor contra quem estivesse do outro lado da lei. Hoje, aparece ao lado de Flávio numa visita a um condenado e inserido num campo político que já o tratou como inimigo. Não é um problema jurídico. É uma contradição política de primeira grandeza.

NO ROCK IN RIO A CENA É OUTRA

Enquanto isso, no Rock in Rio, parte do público puxava espontaneamente o coro de “Lula, Lula”. Não é pesquisa eleitoral e não representa toda a plateia. Mas o contraste ajuda a medir o momento. Em Ponta Grossa, uma aliança precisava reorganizar o passado para caber no presente. No Rio, o nome de Lula surgia de uma multidão sem necessidade de recompor biografias ou explicar reconciliações improváveis.

É esse o Brasil que chega ao 7 de Setembro. De um lado, Moro, o ex-juiz que virou político, atravessa a porta de uma cadeia ao lado do filho do presidente de quem rompeu sob acusações graves. Do outro, uma multidão canta Lula. A data celebra a Independência, mas a política mostra outra coisa: há personagens que parecem ter conquistado independência até da própria história quando a conveniência eleitoral exige.

Leia outras notícias no Portal RSN.

Cristina Esteche

Jornalista

Relacionadas

A missão da RSN é produzir informações e análises jornalísticas com credibilidade, transparência, qualidade e rapidez, seguindo princípios editoriais de independência, senso crítico, pluralismo e apartidarismo. Além disso, busca contribuir para fortalecer a democracia e conscientizar a cidadania.

RSN
Visão geral da Política de Privacidade

Este site usa cookies para que possamos oferecer a melhor experiência de usuário possível. As informações de cookies são armazenadas em seu navegador e executam funções como reconhecê-lo quando você retorna ao nosso site e ajudar nossa equipe a entender quais seções do site você considera mais interessantes e úteis.