As filhas da noite: um retrato social do Jardim das Américas

Debaixo de chuva, uma menina se joga na frente de um carro na PR 170, entre Pinhão e Guarapuava, na noite de quarta-feira (1º). Desesperada, grita por ajuda e acena pedindo carona. Mesmo com receio de um possível assalto, um carro faz a volta e retorna ao local.
A menina, que disse ter 14 anos e morar no bairro Jardim das Américas, contou aos passageiros do carro que estava vindo de Bituruna após ter sido deixada lá por um homem de aproximadamente 40 anos, conhecido dela pelo nome de Marcio, e o descrevia como “um pedófilo desgraçado”.
Segundo o relato da garota, que estava toda molhada, o homem dirigia um celta azul quatro portas e a teria deixado perto de Bituruna ainda no dia anterior, na terça-feira (30) quando ela recusou-se a manter relação sexual com ele. Em Bituruna, pegou carona com um caminhoneiro até o Pinhão. Como estava com muita fome, ele entregou-lhe umas mimosas e um pacote de salgadinho, alimentos que ainda tinha numa sacolinha de plástico que segurava entre as mãos trêmulas.
Com uma calça e blusa coladas ao corpo, que deixava de fora parte da barriga, e um chinelo de dedo nos pés, deixava transparecer o corpo franzino de uma menina já com marcas de mulher.
“Ela andava no meio do asfalto, completamente transtornada. Apesar do medo, decidimos voltar o carro e ver o que estava acontecendo. Quando entrou no carro e se agasalhou com uma blusa que emprestamos a ela, começou a nos contar a história, com muitas contradições. Ela estava fora de casa há 24 horas e nos chamou de anjos por termos parado o carro e prestado socorro. Disse também que pensava em se atirar embaixo de uma carreta”, conta Andréa Alves, repórter da Rede Sul de Notícias, uma das ocupantes do veículo.
De acordo com Andréa, a menina falou que tinha mãe, pai e mais 11 irmãos e, pela sua história, aparentava já conhecer o homem com quem tinha saído. “Era magrinha, sofrida, tremia bastante. A nossa reação de medo se transformou em revolta e indignação ao ver uma criança sendo explorada sexualmente por homens que se aproveitam da situação de miséria, de inocência, é realmente muito triste. Como uma pessoa dessas pode chegar em casa, depois de explorar uma menina, deitar no travesseiro e dormir?”, dispara a repórter.
Eles levaram a menina ao Conselho Tutelar e só conseguiram o número do telefone de plantão através de terceiros, já que o número divulgado na placa, em frente ao órgão, está incorreto. Sem pedir nomes, o conselheiro plantonista, Rodrigo Henke, comentou que no bairro onde a vítima mora, o Jardim das Américas, a prostituição é comum. “Ele disse que, em função da proximidade com a rodovia, muitas meninas acabam se prostituindo. Segundo o conselheiro, recentemente uma menina foi atropelada e acabou morrendo porque tentava pedir ajuda na estrada”, observa Andréa.
Esse é apenas mais um triste e revoltante retrato das filhas da noite e também do dia. Apesar da dureza da vida e na realidade social em que vivem, apresentam uma carência que ultrapassa o corpo franzino. Muitas certamente não têm a compreensão do peso real do que acabam fazendo. Sem maturidade emocional e muito menos sexual, não conseguem avaliar a vida baseada na prostituição.
Fomos ao Jardim das Américas tentar traçar um perfil sobre a prostituição no bairro, mesmo sabendo que não é possível generalizar sobre essas crianças, colocando-as dentro de um quadro rígido e fechado. O único ponto comum é morar numa localidade totalmente abandonada na miséria.
“O nosso bairro está abandonado e isso dá para perceber só na chegada, pela rua que dá acesso, totalmente esburacada e sem manutenção. Falta estrutura básica, espaço para lazer onde projetos sociais possam ser desenvolvidos com as crianças da comunidade. Um descaso, e sabemos que uma coisa leva a outra”, diz o comerciante Derli Godoi, que confirma a exploração sexual no bairro, ressaltando a constante presença de “carrões” pelas ruas.
O presidente da Associação dos Moradores, Luiz Claudio Lemos Batista, conhecido popularmente como Boka, confirma a falta de apoio governamental. “Não estamos tendo incentivo, mas mesmo assim tentamos fazer algo pela população daqui. Montamos uma Central de Reciclagem, que ainda está patinando por falta de recurso, e mantemos um projeto que envolve cerca de 140 crianças, com aulas de esporte e um biblioteca com 8 mil livros. Mas sabemos que ainda é pouco, precisamos de mais, pois sem incentivo as crianças são desvirtuadas. A miséria muitas vezes leva à prostituição”, afirma.

Retratos da miséria
O que leva uma criança a se prostituir e ser prostituída? A primeira resposta que vem à cabeça quando se anda por um lugar como esse, que não parece fazer parte da florida Guarapuava, é a miséria. Palavra que pode ser estendida em todos os sentidos.
Algumas vindas de uma família completamente desestruturada, algumas já trazendo no corpo e na alma as marcas da violência vindo da própria família, acabam fugindo para as ruas em busca de uma liberdade enganosa. Outras são incentivadas pela própria família a se prostituír, em busca de uma renda para ajudar na manutenção da casa e também do vício. Seduzidas pelos atrativos das ruas, vão de encontro ao cheiro da cola e da fumaça do crack.
Na maioria das vezes têm sempre uma cafetina ou um cafetão por trás delas. Eles descobrem um ponto e começam a agenciar, administrando o negócio e mantendo as meninas dependentes, ao mesmo tempo em que as “protegem”.
“Tinha um senhor aqui aposentado, com mais ou menos 60 anos, que dava a chave da casa dele para as meninas que quisessem usar o local, e sempre deixava o armário cheio de comida para elas”, conta uma mãe que não quis se identificar.
A filha entrou nessa vida há um ano atrás, com apenas 12 anos de idade, e graças ao pulso firme da mãe, hoje a menina voltou para a casa da família. “Eu tive que tirar ela da escola, hoje ela não estuda, porque foi indo lá que os problemas começaram. A escola é longe e para chegar lá é preciso atravessar a rodovia e como sou doente e tenho uma neta de um ano para cuidar, não posso acompanhá-la sempre”.
Segundo a senhora, começaram a ligar para ela da escola alertando que a filha, juntamente com outras meninas, faltava aulas pulando o muro da instituição. “Daí ela começou a se envolver com uma gangue de maloqueiros e começou a mudar de comportamento. Saiu de casa por várias vezes, da última chegou a ficar fora por oito dias, sendo abrigada por esse tipo de gente”.
Foi a própria mãe quem a avistou na rodovia, prostituindo-se, quando ía para uma consulta médica. Desceu do ônibus rapidamente e do celular ligou para a polícia. “Ela correu e se escondeu no mato, ao lado de um motel, mas pegamos ela e levamos para casa. Surrei minha filha muito, agora se endireitou, mas foi um ano nesse sofrimento. Eu peguei pesado, mas sei de muitas mães aqui que incentivam por causa do dinheiro. Eu sou pobre, mas não aceito isso”, desabafa a mãe.
Através dela e de outras pessoas do bairro, chegamos a uma mulher chamada Tânia, supostamente envolvida com prostituição. Ao chegarmos na casa dela, uma surpresa: há poucas horas sua casa havia sido incendiada e ela agredida por dois vizinhos.
Apurando os fatos, inclusive com policiais que chegaram ao local, constatamos que Tânia Ramos, 19 anos, agrediu com uma barra de ferro a sua vizinha Felídia Lopes da Luz, uma senhora de 62 anos. O fato ocorreu a poucos metros das casas e acabou revoltando familiares da vítima. Segundo informações do boletim de ocorrência, dois filhos da vítima foram atrás da jovem, machucaram suas mãos e costas e depois teriam colocado fogo em sua casa. Um dos rapazes tinha sido detido e negado as agressões, o outro estava foragido.
Tânia, que tem dois filhos pequenos, estava no hospital. Perdeu sua casa, “toda mobiliada com coisas novas”, segundo uma amiga sua, que também comentou que ela é sustentada por um “namorado que mora no centro da cidade e aparece de vez em quando”. A senhora agredida por Tânia teve traumatismo craniano com exposição óssea e estava internada unidade de terapia intensiva do hospital São Vicente de Paulo.
Quando paramos em frente aos restos queimados da casa, nosso carro foi rodeado por crianças que relataram a violência com uma naturalidade chocante.
Essas são histórias de um bairro que pouco (ou nada) tem mudando com o passar dos anos.
Por Daiane Celso

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