Celso Góes – “Guarapuava não aguenta mais a política de oligarquias familiares”

Agora filiado ao PV, o empresário Celso Góes compara seu novo partido a uma semente que foi lançada sobre a terra e vem germinando com a certeza de uma boa safra. “Uma fruta saudável precisa ser cultivada desde a semente. Só assim você pode garantir à população que o alimento é de qualidade e poderá saciar a sua fome sem riscos de contaminação”, explica ele.
Fazendo uma analogia com a política, Celso Góes afirma que em Guarapuava há uma espécie de “monocultura eleitoral”. Ele explica: a cada eleição, os mesmos candidatos, as mesmas ideias, e a população convivendo sempre com os mesmos problemas. “O único rodízio que existe na política em Guarapuava é entre as oligarquias familiares. E isso precisa acabar, porque a terra não agüenta mais, está perdendo a qualidade dia após dia”, assinala.
Nesta entrevista, o empresário relata sua mudança do PT para o PV e diz ter a certeza de que é possível fazer mudanças, “para melhor”, em Guarapuava. “Estamos atrasados no tempo”, dispara Celso Góes, afirmando que a briga entre “oligarquias políticas familiares” impede o desenvolvimento do município e até da região.

TRIBUNA – Por que o senhor entrou para o PV?
CELSO GÓES – A consciência ecológica é uma tendência que vem crescendo em âmbito mundial. Não sou a favor do radicalismo. Pelo contrário: eu prego a exploração sustentável, equilibrada, dos recursos naturais. Em Guarapuava, por exemplo, temos um grande potencial de reflorestamento que é vital para a sobrevivência econômica de toda a região. De outro lado, temos áreas naturais que precisam ser preservadas, porque desses mananciais depende a subsistência da fauna, da flora e do ser humano. Sem equilíbrio, caminhamos para a auto-destruição.

TRIBUNA – E na vida pública, o que muda com essa nova opção política?
CELSO GÓES – Eu faço parte desse grupo de pessoas que lutou para construir a vida. Meus pais me deram educação e princípios. Com isso, fiz meus estudos, me formei e montei uma empresa em Guarapuava, um laboratório de análises clínicas, procurando oferecer o melhor possível à população nessa área. Quando resolvi me filiar a um partido e depois ser candidato a prefeito, pensei da mesma forma: vou manter meus princípios e fazer o melhor possível, fazendo política com sinceridade, honestidade, com muita garra e determinação. A mudança para outro partido vem para reforçar esse objetivo, de ampliar o espaço de trabalho e dar continuidade ao que já iniciamos.

TRIBUNA – O senhor sai magoado do PT?
CELSO GÓES – De jeito nenhum. Tenho grandes amigos dentro do PT. Foi o partido que me deu a oportunidade de mostrar a Guarapuava que é possível sonhar com verdadeiras mudanças. Estamos vivendo aqui uma ditadura de oligarquias familiares, um revezamento de poder, inaceitável em pleno século 21. Estamos atrasados no tempo porque há uma “guerra familiar”, de sobrenomes, uns atrapalhando os outros, um modelo político totalmente arcaico, velho, mas que ainda resiste em Guarapuava. Quem paga o pato é a população.

TRIBUNA – Como assim?
CELSO GÓES – Vamos pegar como exemplo o setor agrícola. Guarapuava é pólo de uma região com características totalmente rurais. Só que Cascavel também. Londrina, Maringá, Ponta Grossa, idem. Onde está a diferença? A diferença é que aqui há uma concentração política na mão dessas oligarquias, enquanto nas outras cidades há uma união em torno de projetos comuns. A briga do Fernando Carli com a Sociedade Rural é uma briga esdrúxula, ridícula. De outro lado, o Cezar Silvestri se alimenta dessa briga. Um puxa daqui, outro de lá, e a corda arrebenta na mão dos agricultores, que até hoje não têm um parque de exposições decente por conta dessas pendengas eleitorais. O Silvestri é deputado há quanto tempo? Já era hora de ter vindo uma verba federal para construir um novo parque de exposições. Digo o mesmo em relação ao Carli, que está no terceiro mandato e colecionando desavenças para tudo quanto é lado.

TRIBUNA – Onde Guarapuava pode mudar ou melhorar?
CELSO GÓES – Não vou ficar fazendo comparação com outros centros, como Londrina e Cascavel. Citei antes para demonstrar que temos um perfil básico (agropecuária) parecido com essas cidades, e que essas cidades conseguiram atingir um nível de modernidade muito maior porque preservaram o elementar, o indispensável, que é a união da sociedade em torno de objetivos comuns. O potencial de Guarapuava é incrível. É a região do Paraná que tem tudo para crescer. O Estado do Paraná tem uma dívida com a região de Guarapuava. Simplesmente não temos um projeto de desenvolvimento. E não adianta culpar o Requião, ou fosse qual fosse o governador. São os nossos políticos que devem apontar esse caminho. Bater na porta do governo, junto com o presidente da ACIG, da CDL, das Lojas Maçônicas, das Universidades, dos representantes da classe estudantil, dos movimentos sociais, e dizer: precisamos disso e temos isso aqui a oferecer. Temos terra, mão de obra, público consumidor, riquezas naturais, clima, solo, temos tudo! Queremos pesquisa e linhas de financiamento.

TRIBUNA – Mas isso não está sendo feito?
CELSO GÓES – Guarapuava não tem um projeto de desenvolvimento. Veja só… É inegável que a cidade está crescendo, mas isso é por conta de investimentos privados e do “boom” na área universitária. Houve um aquecimento do comércio e da prestação de serviços. A cidade cresce enquanto os políticos antigos brigam. O deputado pensa assim: não vou lutar por Guarapuava porque vou fazer chover na horta do prefeito. E o prefeito revida: não vou lutar pela união com outros prefeitos, porque lá quem manda é o deputado e o governador.

TRIBUNA – O que os outros municípios têm a ver com Guarapuava?
CELSO GÓES – Tem tudo a ver. Somos referência, principalmente na área médica, na região. Na indústria da madeira, há plantios de pinus em diversos municípios, mas a referência na produção industrial é Guarapuava. Tudo tende a convergir para cá. Mas não somos um pólo de fato e de direito, porque até hoje não conseguimos um entrelaçamento entre os municípios, entre as lideranças políticas com mandato, em função dessas contendas políticas inócuas, infantis até. Para Guarapuava crescer mais ainda, é fato consumado que os outros municípios também cresçam. Hoje, somos pólo de problemas: o êxodo rural expulsa os agricultores para Guarapuava, que se tornam bóias-frias aqui, favelados. O gasto no atendimento em saúde é imenso. Deveríamos gastar construindo mais escolas, aprimorando as existentes, investindo na formação de mão de obra.

TRIBUNA – O senhor foi um dos primeiros a assumir a luta contra a Lei dos Supermercados. Por quê?
CELSO GÓES – Porque era uma lei anti-progresso, anti-desenvolvimento. Sou a favor de levar o desenvolvimento para os bairros. Mas isso você faz levando mais escolas, mais infra-estrutura urbana, postos de saúde, centros de convivência social, cultural e esportiva. Abrindo áreas comerciais e industriais com projetos viáveis.
Também vou continuar o trabalho junto aos estudantes, lutando pelo passe-livre e outras conquistas. A Câmara Municipal está de parabéns.

TRIBUNA – O senhor é candidato a deputado estadual?
CELSO GÓES – Eu estou construindo um projeto político e trago comigo pessoas que acreditam em mudanças de verdade. Que têm o mesmo sonho e ideal. Não dependem de um cargo político, pois são profissionais, trabalhadores e empresários já colocados. Todos têm um mesmo sentimento, de que é possível fazer transformações.

TRIBUNA – Por onde começam essas mudanças?
CELSO GÓES – Circule pela cidade e veja o olhar das pessoas. Elas estão assustadas. Há uma total falta de esperança. A mudança começa com isso, de que é possível acreditar em alguma coisa diferente do que temos visto até hoje. Não me refiro ao acidente do ex-deputado. Não vou fazer disso o meu cavalo de batalha, porque seria oportunismo neste momento. Antes disso, os problemas já estavam acontecendo, pois a cidade está totalmente sem liderança. Eu vejo em Guarapuava um grande produto: o ser humano. Essa é a maior matéria-prima que temos. É o guarapuavano com a sua história, com suas tradições, com o seu jeito de ser, de falar. Nossa juventude é maravilhosa. Mas a carência é geral. Não temos sequer um teatro, uma casa de espetáculos, locais para encontros. A maior festa popular da região não é em Guarapuava, e sim em Candói, com a espetacular Festa do Charque. Fazem eventos religiosos aqui, mas a cidade não é preparada, os hotéis, o comércio e restaurantes não se beneficiam. Por quê? Porque são eventos com cunho político, e não de tradição. Conseguiram acabar com a Festa da Vodca, que era um evento maravilhoso. Por quê? Porque quiseram transformar numa coisa “estupenda”, na “festa nacional”. É a história da criança que quando come o doce, se lambuza inteiro.
TRIBUNA – Para o senhor precisamos valorizar nossa identidade?
CELSO GÓES – Exatamente isso. Coisas simples, mas permanentes. Não precisamos de um parque de exposições ou um centro de convenções do tamanho do mundo. Basta um lugar adequado às nossas necessidades, onde nossos valores, sejam eles culturais ou econômicos, possam se acomodar dignamente. Temos força de trabalho. Estudantes que estão saindo das universidades com muitas ideias na cabeça e uma vontade imensa de trabalhar. É este perfil de político que Guarapuava precisa. De um político identificado com essa realidade, com a Guarapuava do Século 21.

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